Pausa musical – Dois gênios se encontram e se dão bem

Jose Roberto de Toledo

19 Setembro 2011 | 02h51

Às vezes um dueto é a subtração de duas vozes. Outras, é uma soma simples, 1 + 1 = 2, certinha como um projeto bem realizado. Muito de vez em quando, porém, o resultado escapa à aritmética. As dez músicas de “Wynton Marsalis & Eric Clapton Played the Blues” são todas de transformar substantivo em adjetivo. Show.

As três apresentações da banda de Marsalis e do guitarrista inglês foram gravadas no Lincoln Center, em Nova York, durante o mês de abril. Agora voltam na forma de CD, DVD e filme no cinema. Faltou a estátua.

Clapton selecionou só blues de origem controlada e garantida. São clássicos popularizados por gente como Bessie Smith, Louis Armstrong e Howlin’ Wolf. A única exceção é Layla, que não foi escolhida por seu autor, mas pelo baixista Carlos Henriquez. Clapton topou, desde que conseguissem fazer algo inovador. É a melhor versão de um dos ícones mais reproduzidos da carreira do guitarrista. Quem diz que é a melhor é ele próprio.

Marsalis fez os arranjos à la King Oliver’s Creole Jazz Band, alma e corpo de Nova Orleans. Deu as partituras para alguns dos melhores músicos de jazz que os Estados Unidos podem oferecer, somou as participações especiais da guitarra do blues man Taj Mahal, e do banjo de Don Vappie, colocou todos dentro de uma das salas com melhor acústica de Nova York, e pôs Eric Clapton para cantar. Dito assim, só poderia dar muito certo.

O resultado excepcional da combinação de tantos talentos é resumido nos gritos finais de Taj Mahal, após “Corrine, Corrina”: “What a show, what a show!”. Marsalis descreveu a colaboração com Clapton como “pura alegria”. Percebe-se o significado de suas palavras na vibração em cada faixa do disco. Soam como virtuoses tocando por prazer músicas que adoram, um puxando o melhor do outro.

Maior astro vivo do jazz, Marsalis se especializou em parcerias inusitadas e bem-sucedidas. No seu disco anterior, “Here We Go Again”, juntou-se ao “country” Willie Nelson e à “jazzy” Norah Jones para celebrar o gênio de Ray Charles. O álbum é muito bom. Mas nem se compara a “Wynton Marsalis & Eric Clapton Played the Blues”. Só faltou mesmo a estátua.

“Wynton Marsalis & Eric Clapton Played the Blues”, gravado ao vivo no Jazz at Lincoln Center, em Nova York. Na loja norte-americana da iTunes, por US$ 9,99.

Ice Cream (Howard Johnson / Robert King / Billy Moll)
Forty-Four (Chester Burnett)
Joe Turner’s Blues (W.C. Handy)
The Last Time (Bill Ewing / Sara Martin)
Careless Love (W.C. Handy / Martha E. Koenig / Spencer Williams)
Kidman Blues (Big Maceo Merriweather)
Layla (Eric Clapton / Jim Gordon)
Joliet Bound (Kansas Joe McCoy / Memphis Minnie McCoy)
Just A Closer Walk With Thee (Traditional)
Corrine Corrina (Bo Chatman / Mitchell Parish / J. Mayo Williams)

Mais conteúdo sobre:

música