O que o Datafolha mostra até agora sobre a sucessão

Jose Roberto de Toledo

28 Fevereiro 2010 | 16h44

1) Petistas e lulistas descobrem Dilma

Eleitores pró-Lula descobriram que Dilma Rousseff (PT) é a candidata do presidente. Em dezembro, 20% citavam espontaneamente Lula e 8% diziam Dilma. Agora, sem ver antes o cartão com os nomes dos candidatos, os que citam Lula caíram para 10%, e os que falam Dilma subiram para 10%. Ainda há 4% que, na pesquisa espontânea, falam “o candidato do Lula”, sem saber quem ele é. Ou seja: o lançamento oficial da candidatura petista ajudou a ministra a consolidar-se entre seu eleitorado cativo.

2) Dilma cresce entre os que vivem com até 5 salários mínimos

O crescimento de Dilma na pesquisa estimulada, de 23% para 28%, reflete a descoberta, principalmente pelos mais pobres, que ela é apoiada pelo presidente. Entre os que vivem com até 2 salários mínimos Dilma subiu de 23% para 29% e empatou com José Serra (PSDB), que caiu de 35% para 30% nesse segmento.

Ela cresceu exatamente nessa mesma proporção na faixa seguinte de renda, entre aqueles que vivem com entre 2 e 5 salários: de 23% para 29%. A diferença é que, nesse estrato do eleitorado, Serra ainda leva uma pequena vantagem, pois oscilou menos, de 37% para 34%.

3) Entre os homens, Dilma empata com Serra

A ministra também evoluiu no eleitorado masculino, ao ponto de alcançar Serra. Dilma subiu de 27% para 32% entre os homens, enquanto o tucano variou de 36% para 32%.

4) Mulheres ainda dão vantagem a Serra

Não fosse pela vantagem que mantém entre o eleitorado feminino, Serra dividiria a liderança com Dilma. O tucano, porém, perdeu eleitoras desde dezembro: caiu de 38% para 33%. Mas o avanço de Dilma entre as mulheres não foi suficiente para alcançar o adversário. Ela foi de 20% para 24% no eleitorado feminino.

5) Divisão geográfica do voto repete 2006

A predominância de Serra no Sul e no Sudeste, e de Dilma no Nordeste repete a divisão geográfica do eleitorado que se viu em 2006, quando Lula foi reeleito. Naquela eleição era possível traçar uma diagonal no mapa, separando os territórios eleitorais pró-Lula e pró-Alckmin. A diferença foi a intensidade da vantagem obtida por Lula no Nordeste, Norte e Centro-Oeste, que anulou a vitória tucana mais ao sul.

6) Pano de fundo da eleição é governista

Os 73% de aprovação do governo, um patamar inédito para um presidente em segundo mandato, sugerem que os candidatos de oposição terão mais dificuldade para encontrar um discurso de campanha do que a da situação. A Dilma basta defender o status quo. Os adversários, ao contrário, precisam propor alguma novidade atraente.

CONCLUSÃO

Dilma cresce e pode empatar com Serra, talvez ultrapassá-lo, na pré-campanha. Mas nada garante que a aceleração da petista se mantenha constante. O intervalo entre a sua saída do governo, em março, e o início oficial da campanha, em junho, será um período de menor exposição, o que tornará mais difícil para ela sustentar a velocidade de crescimento que mostrou em fevereiro.

Por ora a candidata de Lula avançou entre simpatizantes do PT e entre os que aprovam o governo com mais entusiasmo. As próximas camadas a convencer talvez sejam mais resistentes. Cantar vantagem antes da hora é também uma armadilha em que alguns petistas estão caindo.

A indefinição de Serra obviamente não lhe rende votos. Se confirmar sua candidatura e, ao fazê-lo, obtiver espaço na mídia, o tucano pode recuperar parte de sua intenção de voto. Mas, por ora, tem contra ele as chuvas que afundam a popularidade do aliado Gilberto Kassab (DEM) como prefeito de São Paulo.

Apenas uma minoria do eleitorado tem candidato na ponta da língua. O que se mede por ora é o grau de conhecimento do eleitor sobre quem são os candidatos, se eles os identificam com o governo ou com a oposição. Ou seja, até que a campanha comece para valer ainda há muito espaço para volatilidade da intenção de voto.

PS: Quando o Datafolha divulgar os relatórios completos da pesquisa será possível aprofundar a análise sobre aprovação do governo versus intenção de voto, peso dos programas sociais na eleição, entre outros temas.