O pós-protesto

Jose Roberto de Toledo

24 Junho 2013 | 07h22

Mesmo antes de o gás lacrimôgenio baixar, algumas consequências da onda de manifestações são visíveis. A saber:

1) Dilma Rousseff está pagando o pato.

A presidente não era o alvo das manifestações tempestivas, mas virou seu para-raios. Sua popularidade caiu e continua caindo. No IndiPop do Estadão Dados, que faz uma média de pesquisas de avaliação divulgadas ou não, seu saldo de aprovação (ótimo+bom menos ruim+péssimo) caiu 18 pontos desde março. Apenas na semana passada, foi de 45 para 40 pontos. Os protestos reforçaram a tendência de queda (http://blog.estadaodados.com/indipop).

2) A classe média tradicional cansou de Dilma e do PT.

A perda de popularidade de Dilma ocorre em todas as regiões e segmentos, mas se concentrou na classe média tradicional. Foi ela, e não os emergentes, que se insurgiu nas ruas. No Sul, no Sudeste e entre quem ganha mais de 10 salários Dilma está num patamar típico de reta final do primeiro turno presidencial. É como se a presidente já tivesse sofrido o desgaste típico de uma campanha eleitoral com ataques e denúncias da oposição.

3) Revolta contra partidos cria espaço para aventuras.

Dilma e o PT perdem mais porque têm mais a perder. Mas a revolta é contra os partidos em geral, e a incapacidade do atual sistema político de produzir resultados. Assim, não necessariamente os partidos de oposição, como o PSDB, vão se beneficiar do desgaste dos rivais. Está aberta a porta para salvadores da pátria.

4) Protestos reabriram cenário de 2014.

Até poucas semanas atrás, Dilma era franca favorita a se reeleger no primeiro turno. Agora, age para consolidar sua candidatura dentro do próprio partido, contra a turma do “volta Lula”. Mais partidos deverão lançar candidatos a presidente, tentando capitalizar parte do descontentamento. A briga é pela outra vaga no segundo turno, porque uma ainda é dos petistas.

5) Manifestações viraram arma para todos os lados.

O PT e a esquerda perderam o monopólio das manifestações de rua. Quem saboreou o reconhecimento público e a vitória de suas reivindicações (afinal, revogaram o aumento da passagem, a presidente teve que dar satisfações na TV) aprendeu que tem outras formas de fazer valer seus interesses além do voto. Engajamento tende a aumentar; novas lideranças, a aparecer.

6) Reforma política não é para políticos.

A discussão sobre a necessidade de reformar a política deixa de ser assunto exclusivo para políticos profissionais. Novas ideias de representação, diminuindo o poder dos partidos, ganham força. A proposta de financiamento público de campanha está enterrada: dar mais dinheiro de impostos para políticos aparecerem bem na TV é capaz de provocar uma nova onda de protestos.

7) Procura-se um slogan que mobilize todos.

A personalização do consumo chegou à política. Motes universais como “combate à fome” já não bastam. As manifestações “pós-20 centavos” mostraram uma enorme pulverização dos desejos. Se alguém conseguir uni-los sob um mote único, larga com grande vantagem sobre os rivais. Mas talvez esse slogan não exista.

8) Quem agrada gregos desagrada troianos.

Dilma fez o que era esperado dela ao dar a cara para bater em rede de TV. Tentou transformar a agenda negativa em positiva, recolocando em pauta, por exemplo, a destinação do dinheiro do pré-sal para a educação. Mas quando falou em trazer milhares de médicos do exterior, cutucou um vespeiro. Os nacionais reagiram nas redes sociais e é capaz de irem às ruas. Agora é assim.

9) Espiões sabem menos que as redes sociais.

Os órgãos de “inteligência” do governo brasileiro não previram nada do que aconteceu no Brasil. Caíram em desgraça, por obsoletos. Não é à toa que Obama é fã de bisbilhotar emails, SMS e toda forma de comunicação eletrônica. 007 agora é hacker.

10) Não tem décima: “Abaixo os números redondos!”