O ponto de não retorno

Jose Roberto de Toledo

14 de março de 2015 | 19h53

Mais de uma pesquisa telefônica sobre o governo Dilma Rousseff encontrou, nas últimas semanas, taxas de “ótimo/bom” inferiores a 10% e, mais grave, maioria de avaliações “ruim/péssimo”. Em todas, o saldo de popularidade da presidente supera os 40 pontos negativos entre quem tem telefone fixo em casa. Quanto mais recente a pesquisa, maior o déficit. O poço vai mais fundo.

Desconte-se a omissão dos sem-telefone – entre quem ela costumava sair-se melhor. Ainda assim, a impopularidade de Dilma só é comparável às de José Sarney e de Fernando Collor. A petista não chegou aos piores momentos dos dois ex-presidentes, mas, pela Constituição, ainda tem 45 meses de governo à frente. No Datafolha, Collor bateu em 59 pontos negativos pouco antes do impeachment. Mas Sarney chegou a -63 pontos durante a campanha à sua sucessão em 1989. Nem por isso foi impedido.

Impopularidade recorde talvez seja uma das condições necessárias para um governante perder o cargo, mas é insuficiente. Vários governadores concluíram seus mandatos em 2014 mesmo carregando percentuais de desaprovação ainda maiores do que os de Dilma.

O processo de impeachment requer um fato concreto que implique o presidente a um ato ilegal no exercício do mandato. Até agora, apesar das centenas de milhões tirados da Petrobras, só há especulação quanto ao ato – e seus propagadores são poucos. Deputado dos saudosos da ditadura militar, Jair Bolsonnaro saiu na frente e apresentou o pedido de impeachment antes e sozinho.

Qualquer um que queira seguir por esse caminho agora terá que se associar a ele e a tudo o que representa. Além disso, o PT mostrou nesta sexta-feria que, apesar do enorme desgaste que sofreu e sofre, ainda tem algum poder de mobilização popular. É algo que a oposição leva em conta ao planejar seus movimentos. Daí que até os tucanos descartem buscar o impeachment, ao menos não antes de um Fiat Elba aparecer na garagem presidencial.

Portanto, toda a conversa de impedimento – excitada pela manifestação marcada para este domingo – é mais um elemento de pressão sobre Dilma do que uma perigo real e imediato para o seu mandato. O que é grave, concreto e mensurável é a abrupta perda de apoio, popular e político, da presidente.

O dígito único de aprovação prova que não se trata de um movimento restrito à elite empresarial e à classe média do Sul e Sudeste. O PT e Dilma perderam sustentação em segmentos sociais que contavam ser seus sólidos apoiadores. Um governante só passa de 50% de ruim e péssimo se uma parte significativa dos mais pobres e menos escolarizados assim considerar o seu governo.

Levantamento do Ibope DTM mostra que houve sim uma concentração em São Paulo e Rio de Janeiro de tuítes sobre o panelaço de domingo passado – aquele simultâneo ao pronunciamento presidencial. Mas quando o instituto calcula a taxa de penetração dos tuítes sobre esse tema em cada Estado, descobre que eles foram proporcionalmente mais intensos em Mato Grosso, São Paulo, Tocantins, Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.

Pior para Dilma, a proporção dos tuítes sobre o panelaço foi significativa em alguns Estados do Nordeste, como Piauí, Bahia e Ceará. Não é uma medida de todo o eleitorado, mas é um termômetro que mostra como o desgaste é generalizado e amplo.

A presidente tem razão quando diz que o processo econômico que manteve o PT no poder pelos primeiros 12 anos se esgotou. Não há mais filas para abrir crediário nas casas de comércio popular. Só para honrar as prestações adquiridas no passado. Chegou a hora de pagar a conta, e o PT é o principal fiador.

Dilma só tem duas saídas: melhorar a política e a economia. A economia ela terceirizou. Na política, vai precisar do apoio do PMDB e congêneres para que esses ditos aliados não sabotem a terceirização que ela fez na economia. Sem isso, passará o ponto de não retorno de sua popularidade.

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