O poder e o acaso

Jose Roberto de Toledo

23 de janeiro de 2017 | 00h10

Quedas de avião são sempre manchete porque inesperadas e, especialmente, imprevisíveis – mesmo se crermos em conspiração. O mergulho mortal do bimotor no qual viajava Teori Zavascki só virou teoria conspiratória após o fato. Ninguém previu, ninguém antecipou que o juiz da Lava Jato seria velado por potenciais réus – flagrados compadecidos, posando ao lado do caixão. A tragédia entristece, mas é a incerteza que aterroriza.

Aceitar que foi acidente implica conformar-se que eventos cruciais estão além da possibilidade de previsão. Melhor fingir controle. É essa síndrome de cartomante que faz o mercado financeiro e o mundo político projetarem que a morte trágica de Teori é fator de estabilização do governo de Michel Temer.

Para além do “wishful thinking”, é bom lembrar que autoridades cruzam o ar todo dia em aviões King Air e Cessna Citation, em helicópteros Esquilo, como Teori, Eduardo Campos e Ulysses.

Humanos têm dificuldade de assimilar o aleatório. Inventaram a ciência para tentar explicar o mundo, e a religião para criar sua justificativa. São o “como” e o “porque” que tentam dar ordem ao universo. Afinal, um universo ordenado é mais previsível – e imprevisibilidade desconcerta. Mas qual é a marca da política brasileira em tempos de Lava Jato senão a incerteza, o inesperado e o imprevisível? É vão ignorar o poder do acaso.

Do discurso à ação

No seu discurso de posse, Donald Trump não apenas empregou termos jamais usados por outros presidentes norte-americanos ao fazerem o juramento para o cargo (“carnificina”, “sangria”, “desespero”) como o fez de uma maneira que qualquer um que tenha estudado apenas até a oitava série pudesse compreender.

Não é força de expressão. Foi esse nível que o discurso de posse de Trump atingiu na escala Flesch-Kincaid de legibilidade, segundo a Politico Magazine. Em favor de Trump pode-se argumentar que falar fácil e simples é uma tendência entre políticos. Seu antecessor, Barack Obama, leu um discurso de posse compreensível para quem cursou até a nona série.

Clareza da fala é uma virtude em tempos de mídias sociais – para escapar do narcisismo palavrório das mesóclises. O problema, no caso de Trump, é que o discurso simples é também simplista. O novo presidente diz que fala para o norte-americano comum e não para as elites – que ele voltou a atacar na cerimônia de posse. Mas, segundo análise de cientistas políticos, suas palavras denotam que ele não pretende compartir o poder com o povo.

O discurso populista, afirma um pesquisador citado pela revista, costuma andar de mãos dadas com a simplificação de coisas complexas. Ele é simplório propositalmente, para fazer crer que assuntos como aquecimento global e sistema público de saúde são quase banais e não necessitam de debate, pois só há um ponto de vista predominante e correto: o do líder populista, é claro.

Não por acaso, o primeiro ato de Trump foi banir da página da Casa Branca na internet todo o conteúdo relativo a aquecimento global – algo que ele diz não ser causado pela humanidade.

Não deve parar por aí. Chistopher Olds, o cientista entrevistado pela “Politico”, comparou os discursos de posse dos presidentes dos EUA desde 1993 com o emprego de decretos presidenciais. Quanto mais simplista o discurso do presidente, mais frequentemente ele recorreu a esse tipo de decisão unilateral, que passa ao largo de discussões no Congresso, por exemplo.

Se a correlação encontrada por Olds se mantiver, Trump é candidato a usar a caneta com frequência e arbitrarieridade como poucos antecessores seus o fizeram. É um comportamento arriscado para quem vai governar um país tão dividido quanto os EUA. Resta torcer para Trump sofisticar seu discurso. Pena não existir mesóclise em inglês.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: