O poder da compra

Jose Roberto de Toledo

20 de maio de 2013 | 18h00

A renovação da cúpula do PSDB é uma volta à era FHC. Aécio Neves quer dar a Fernando o que é de Henrique. Convencer o eleitor de que o salto do Brasil foi dado quando os tucanos mandavam em Pindorama. Méritos à parte, é muita fé no marketing político.

Quando o PT chegou ao poder, o fogão estava universalizado no Brasil: 98% dos brasileiros tinham. Foi um feito da era tucana. Outros itens de consumo doméstico estavam à beira da universalização. A televisão atingia a casa de 90% dos brasileiros, e a geladeira era usada por 86%. Sob a dupla Lula-Dilma, suas taxas chegaram a 97% e a 96%, respectivamente.

Por que, então, a maioria dos eleitores teima em creditar aos presidentes petistas o seu salto de consumo? Não foram 11% a mais de posse de geladeira que impulsionaram o triplo mortal carpado do petismo. Talvez seja a máquina de lavar roupa: 52% de aumento sob o PT. Mas ainda está fora do alcance de metade dos brasileiros – e não é “o” sonho de consumo da metade masculina.

Então foram os telefones, especialmente os celulares. Pulularam das mãos e ouvidos de 61% para 91% dos eleitores brasileiros. Praticamente só quem ganha menos de dois salários mínimos não tem um aparelho em casa ou no bolso. Mas a privatização que possibilitou esse avanço foi no governo tucano. O consumidor não pode ser tão mal-agradecido. Há de ser outra coisa.

A internet! Só pode ser a internet. Tudo, hoje, é culpa da internet. Nenhum bem ou serviço avançou mais desde que o PT é governo: cresceu 200% a posse de computador em casa e 241% a conexão domiciliar ao mundo digital. De cada 10 casas, 4 estão ligadas à rede mundial de computadores e a proporção cresce 30% ao ano. De casa ou do trabalho, meio Brasil está conectado.

Mas essa é uma tendência mundial, consequência dos avanços e do barateamento da tecnologia. O governo petista lançou um programa ainda imberbe de banda larga popular. Deu sorte. Também.

No pós-guerra, a universalização dos bens de consumo de massa garantiu prosperidade aos EUA por três décadas. Quando o mercado saturou, mudou-se a estratégia. Em vez de mais do mesmo para todos, veio a diferenciação pelo consumo, o culto ao status pessoal via personalização dos produtos. Todo mundo quer ser diferenciado, não pelo que é, mas pelo que aparenta ter.

O PT chegou ao poder antes do auge da massificação do consumo no Brasil. Associou sua imagem à universalização muito mais do que os tucanos, que perderam o bonde no meio do processo. Os neoconsumidores sufragam o PT na urna para defender seu novo status quo, não a conversa ideológica do partido. Contra isso, recontar a história pode ser justo, mas é irrelevante.

É Carnaval!

Mais arrastada do que guarda-roupa em mudança, a votação da MP dos Portos foi um desfile de alegorias políticas brasilienses: batalha de confete entre blocos privados, desarmonia partidária, ala dos oportunistas – tudo ao custoso ritmo da bateria de cooptação governista. Carnaval de verbas e verbos.

É o cenário perfeito para um passista como o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), exercitar seu bailado. Termina aplaudido pelos figurantes por saber arrancar do governo mais do que o governante está disposto a dar. Valoriza o voto do baixo clero da Câmara e posa de mestre-sala.

Cunha só baila porque o governo toca. Ele já dançou o minueto ao som de presidentes como Fernando Collor e governadores como Sergio Cabral e Anthony Garotinho (com quem trocou impropérios outro dia). Dilma Rousseff é a maestrina da vez.

Se quiser, como se propala, acabar com a festa de Cunha, a presidente vai ter que parar a música – aí ainda mais foliões vão reclamar. Contra a penitência, ameaçam com abstinência de votos.

Dilma está descobrindo que, em Brasília, Momo reina o ano inteiro e a Quaresma termina em fevereiro.

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