O escárnio adjunto

Jose Roberto de Toledo

16 de janeiro de 2013 | 18h43

O que separa um aviso bem intencionado do escárnio, às vezes, é uma só palavra, um adjunto em excesso. Tome-se o caso da Linha 4 do Metrô paulistano. Segundo reportagem do Estadão.com.br, dizem os auto-falantes dos trens nos horários de pico: “Se não conseguir desembarcar na estação de destino, siga até a próxima estação e retorne gratuitamente”. Pois é, “gratuitamente”.

A palavra que encerra o aviso (que, diga-se, pretende evitar o atraso das composições por causa do não-fechamento das portas) caçoa duas vezes do passageiro. Primeiro, desdenha da inteligência: ninguém desembarcaria na estação seguinte e, por querer, ultrapassaria as catracas e voltaria à área de embarque pagando novamente. Sugerir que ele pudesse fazer isso se não fosse devidamente alertado é considerar o usuário um estúpido.

O pior menosprezo do “gratuitamente”, entretanto, é ao tempo dos passageiros. Então os minutos a mais que as pessoas gastam para ir até a estação seguinte, dar a volta na plataforma, subir e descer escadas, e embarcar no sentido oposto não têm valor? O Metrô pode até tentar racionalizar dizendo que mais pessoas perderiam tempo se o trem ficasse parado na estação, mas não dá para dizer que a tal “viagem negativa” não custa nada. Escárnio.

Como seria escarnecer da população projetar tão bem uma linha de Metrô que muito antes de estar concluída já operasse além de sua capacidade. Ou construir uma linha nova que não separasse embarque de desembarque, que desligasse suas esteiras rolantes no horário de pico para não esmagar quem está do outro lado, porque não há espaço suficiente para os usuários na estação.

O que acontecerá com a lotação da Linha 4 quando as estações que faltam forem inauguradas? Corre-se o risco de um aviso do Metrô dizer que vai melhorar. Afinal, o passageiro que não desembarcou onde queria poderá fazer uma “viagem negativa” mais curta.

No noticiário do dia, maior escárnio que o do Metrô só o da Assembleia Legislativa de São Paulo. Outro adjunto é o culpado. Dessa vez, o termo foi suprimido – e, com ele, a obrigação dos servidores do Legislativo de assinarem ponto “diariamente”. É mais grave porque não foi descuido, foi intencional. A supressão visa permitir aos funcionários dos deputados “trabalhar fora da capital”. “Fora da capital”, OK. O problema é “trabalhar”.

PS: Após a repercussão do caso, o Metrô anunciou que vai tirar o aviso do ar. Já a Assembleia manteve a decisão de abolir o ponto diário dos servidores. Essa é a diferença entre escárnio involuntário e de caso pensado.

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