O barato das campanhas

Jose Roberto de Toledo

17 de outubro de 2016 | 00h19

O fim do financiamento empresarial funcionou. Ainda não se conhece o preço total da eleição, porque as prestações de contas definitivas ainda estão por vir, mas as campanhas ficaram mais baratas. Podem ter custado menos da metade, talvez até um terço das de 2012. E isso é bom? Menor a necessidade de pedir dinheiro para empresas, menores as oportunidades para corrupção.

Tirando os sócios de uma ou outra construtora local, não se viu empreiteiros entre os doadores de 2016, por exemplo. Aumentou a participação do financiamento público, é fato. As contribuições de pequenos valores de pessoas físicas pela internet beiraram o irrisório, também é verdade. Mas diminuiu muito o peso e, portanto, a influência do capital empresarial sobre as urnas.

Do lado das despesas, houve um barateamento generalizado do marketing eleitoral. Marqueteiros precisaram trabalhar em mais campanhas para ganhar um pedaço do que costumavam receber. Serviços e equipamentos também passaram por um enxugamento.

Em 2012, gabavam-se de usar a RED – empregada em Hollywood para filmar longas metragens – ao custo de R$ 7,5 mil por dia de aluguel da câmera. Em 2016, a vedete foi a DJI Osmo, uma portátil com estabilização de imagem para tomadas em movimento e que usa o celular do fotógrafo como tela para ver as imagens. Preço: R$ 2,5 mil. Não para alugá-la, mas para comprá-la.

Mudaram também os profissionais. Até 2012, diretores de filmes de publicidade comercial eram os mais requisitados para gravar os candidatos das cidades mais populosas para suas aparições no programa eleitoral e nos spots de TV. Em 2016, seu preço ficou alto demais para as campanhas. Entraram em cena diretores de filmagem de casamento, que cobram um décimo. Não fez diferença visível nem na urna. Vários “noivos” acabaram eleitos.

Do lado da receita, o fim das doações empresarias foi ainda mais importante. Não houve nada parecido com a churrascada eleitoral promovida pela JBS em 2014. O frigorífico doou mais de R$ 350 milhões naquela eleição, e ajudou a eleger mais de 180 deputados federais – foi, disparada, a maior bancada eleita na Câmara. Nenhum doador universal se destacou em 2016. Só os partidos.

As direções partidárias exerceram uma influência maior no destino da eleição, ao decidir quais candidatos seriam privilegiados com mais recursos e quais ficariam por conta própria. As estratégias variaram de agremiação para agremiação.

O PRB, presidido por um bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, concentrou a liberação de recursos no diretório nacional. Foram quase R$ 50 milhões, metade disse oriunda do Fundo Partidário – ou seja, recursos públicos. Marcelo Crivella, que lidera as pesquisas no segundo turno no Rio de Janeiro, foi quem mais recebeu. Logo a seguir, ficou Celso Russomanno, que terminou em terceiro lugar para prefeito paulistano.

Já o PMDB dispersou os recursos entre centenas de diretórios locais, como era esperado. Ao contrário do centralizado PRB, o PMDB é uma confederação de partidos estaduais que funciona como condomínio, e onde as decisões, inclusive as financeiras, dependem de acordo entre os seus vários caciques.

Os auto-financiados, como João Doria (PSDB), levaram vantagem, porque a legislação ainda é falha em muitos aspectos. Candidatos ricos podem tirar quanto quiserem do próprio bolso e colocar na campanha. Não deixa de ser um financiamento empresarial. A diferença é que a empresa pertence ao candidato.

Outra falha é não haver limite absoluto para as doações individuais, apenas uma proporção da renda do doador. Quanto mais rico é, mais ele pode doar e influir na campanha.

Mesmo assim, foi melhor do que a farra das doações empresariais. Por isso é temerário quando políticos começam a falar em reforma eleitoral. Sabe-se lá quais contrabandos passarão através dela.