Mal no começo

Jose Roberto de Toledo

14 de fevereiro de 2011 | 18h10

Cenário: maior inflação em 68 meses; produção industrial desacelerando, principalmente no Nordeste; problemas nas contas externas; blecautes em vários estados.

Ações: anúncio do mais profundo corte de gastos federais em oito anos; congelamento de concursos públicos; reajuste de salário mínimo menor do que a inflação (dos mais pobres); alta dos juros.

Dilma Rousseff está começando seu governo como Lula iniciou seu primeiro mandato: com um freio de arrumação. Que a freada é necessária, poucos discutem. A herança foi politicamente generosa, mas tem conflitos e pendências econômicas inadiáveis.

A presidente parece querer fazer o mal de uma vez só e logo. A fórmula deu certo com o antecessor, e é recomendada há mais de 500 anos por especialistas em marketing político. Inventor da profissão, Nicolau Maquiavel virou adjetivo colocando o conselho no papel.

A aplicação da dica, todavia, requer algum talento. Fernando Collor seguiu o manual ao pé da letra. Arrepiou o esqueleto do florentino ao confiscar, de cara, a conta corrente da população. Mas esqueceu da segunda parte, distribuir bondades a prestação. O resultado é conhecido.

Como há 20 anos, a reação atual dos analistas econômicos oscilou entre a perplexidade e a aprovação escancarada. Não que isso queira dizer muita coisa, mas o boletim do primeiro mês de Dilma na Presidência veio repleto de elogios dos mestres na matéria.

Os cortes também excitaram o faro da oposição. Por um instante, os candidatos a candidato tucano deixaram de trocar bicadas entre si e viraram seus discursos, piadas e entrevistas contra a rival estacionada no Palácio do Planalto.

Aécio Neves saiu do muro ao dizer, resumidamente, que cortes são necessários porque o Brasil não é cor-de-rosa como o PT pintou-o na campanha eleitoral. Mas gaguejou na mineirice e a frase saiu longa demais para virar uma manchete.

José Serra precisou de três twitts para criticar o pronunciamento de Dilma na TV. A presidente tentou criar uma “agenda positiva” em meio aos cortes e anunciou um programa de bolsas para o ensino técnico. Serra ironizou, sem sucesso, e depois explicou a piada:

“O governo do PT copiou uma ideia nossa. Não esperava que eles dessem o crédito da autoria. Mas é bom saber como funcionam: na campanha, execram, no governo copiam, em geral mal.”

Geraldo Alckmin foi mais curto: anunciou salário mínimo de R$ 600 em São Paulo e prometeu contratar 25 mil professores para a rede pública de ensino. Que falta fazem uma caneta e um Diário Oficial, devem ter pensado os ex-governadores Aécio e Serra.

E assim, o menos cotado dos três tucanos, faturou melhor a freada de Dilma, por enquanto.

A corrida, todavia, é uma maratona. Começar na frente ou atrás não faz tanta diferença assim. Fernando Henrique e Lula tropeçaram em muitos obstáculos nos seus longos caminhos até a cadeira presidencial. Conseguiram atropelar na reta final. Tiveram sorte também.

Se o retrospecto valer algo, a curva de popularidade de Dilma deverá baixar em comparação à expectativa antes da posse. Nenhum antecessor conseguiu sustentá-la depois de empossado. Nem Lula, que só foi equipará-la (e ultrapassá-la) depois de muitos anos de governo.

A questão é o quanto vai baixar. O pacote de maldades foi apenas anunciado. Seu efeito ainda não aconteceu. Vai demorar uns meses até os eleitores sentirem no bolso.

Além disso, há o tradicional período de carência que a população concede a todo governante, um voto de boa vontade, que, no Brasil, coincide com as férias de verão e o pré-Carnaval. Assim, será nas Cinzas o primeiro teste de popularidade de Dilma.

Mas será necessário esperar passar a Quaresma e o acúmulo de algumas sondagens para poder avaliar se o mal no começo foi ou não um mau começo.

A repetição da estratégia de Lula por Dilma vai botar à prova duas vertentes que tentam explicar a popularidade recorde do ex-presidente: o sucesso econômico versus o carisma pessoal. Os conselheiros maquiavélicos devem acreditar na primeira hipótese.

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