Lula é o terapeuta no casamento de conveniência entre PT e PMDB

Jose Roberto de Toledo

26 de maio de 2011 | 17h16

“Temos sido ignorados. Estamos no limite da insignificância”. A frase do senador peemedebista Ricardo Ferraço, reportada por Vera Rosa e Christiane Samarco no Estadão, é a chave do roteiro de novela mexicana em que se transformou o caso Palocci.

PT e PMDB coabitam mas pouco se falam. É o estereótipo do casamento de conveniência, em que os noivos, nos dias melhores, se suportam. Em linguajar de cientista político, é um presidencialismo de coalizão, mas só um dos lados reconhece isso: o que não tem a caneta nem o poder de decisão. Por isso o PMDB demonstra que tem os votos necessários no Congresso para transformar a vida do cônjuge em pesadelo.

O PMDB se queixa de que não toma parte nas decisões mais importantes de governo. E, pelos relatos de vários senadores da chamada base governista, o problema vai além disso: o partido e seus parlamentares não são reconhecidos pelo PT nem pelos ministros palacianos como interlocutores que representam uma parte importante dos alicerces do governo no Congresso. Não são ouvidos.

Indícios de tráfico de influência à parte, o caso Palocci teria muito provavelmente ficado confinado à imprensa se não houvesse essa insatisfação peemedebista, que se repete entre partidos agregados, como o PR. Foi ela que abriu a possibilidade de instalação de uma CPI para investigar o ministro no Senado. Para a transparência pública, pode vir a ser ótimo. Para as árvores certamente não foi.

No calor da crise, a presidente Dilma Rousseff precisou assumir publicamente a defesa de seu ministro, chamar Lula para fazer o trabalho que Palocci não fez, e o governo precisou ceder mais do que gostaria na votação do Código Florestal, na defesa de políticas contra o preconceito e sabe-se lá no que mais. Paga às pressas, a fatura saiu muito mais cara do que se tivesse sido negociada.

As tensões e desgastes entre os cônjuges tendem a se repetir e, se não passarem por uma boa terapia, a se agravarem no futuro. Principalmente quando as eleições de 2012 se aproximarem e ficar ainda mais evidente que o casamento de conveniência federal não é conveniente na maior parte dos municípios.

A estabilidade do governo Dilma passa por um tripé: 1) o ritmo da economia (hoje ela pode comemorar a notícia de baixa recorde do desemprego em abril); 2) a saúde da presidente; e 3) a coabitação com o PMDB. A ameaça à primeira é a inflação, à segunda é a falta de transparência, e à terceira é a incapacidade de ouvir e negociar com o outro lado.

Mais conteúdo sobre:

DilmaLulaPalocciPMDBPT