Lula faz a diferença entre os discursos de Dilma, Serra e Marina como candidatos

Lula faz a diferença entre os discursos de Dilma, Serra e Marina como candidatos

Jose Roberto de Toledo

13 de junho de 2010 | 20h10

Os três falam muito de Brasil e dos brasileiros. Mas, para além dos jargões de campanha, seus discursos revelam a diferença fundamental de suas candidaturas. Pela ausência ou pela dominância, Lula, mais do que qualquer outro tema, é o que separa a fala de Dilma Rousseff (PT) das de José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV).

Na quinta-feira, Marina começou a série de discursos dos agora candidatos formais à Presidência mencionando Lula três vezes. Não tinha como ignorá-lo: além de terem militado juntos no PT, ela foi sua ministra do Meio Ambiente por cinco anos.

Mas Marina falou menos do presidente do que de quem, nos seus cálculos, pode ajudá-la mais na atual campanha presidencial. Foi o caso do seu candidato a vice, o empresário Guilherme Leal, dono da Natura, mencionado nada menos do que 13 vezes.

Como esperado, a candidata do PV falou um pouco mais de meio ambiente do que seus adversários. Mas não foi isso que diferenciou seu discurso. De longe, foi a presidenciável que mais disse “eu”, talvez por ter improvisado mais: foram 28 vezes, contra apenas 4 “nós”. Pode parecer um detalhe, mas não é.

Dilma, ao contrário, foi eclipsada por Lula no seu próprio discurso. No domingo, a candidata do PT disse “eu” apenas 4 vezes, enquanto pronunciou a palavra “Lula” em 18 ocasiões -isso sem contar os 20 “presidente”. Tal frequência só é comparável à quantidade de vezes que Lula menciona Dilma em seus discursos.

Serra não mencionou Lula diretamente nenhuma vez, no discurso de sábado. Só o fez de forma dissimulada, dizendo que o Brasil não precisa de “Luíses” -uma comparação implícita entre o atual presidente e o déspota francês Luís XIV, que dizia que “o estado sou eu”. Serra falou “eu” 18 vezes, contra 3 “nós”.

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O “fator Lula” também impactou a escolha dos verbos pelos presidenciáveis. Numa ginástica semântica, Dilma conciliou conceitos em princípio antagônicos: ”mudar” (24 citações) e “seguir/continuar” (33 menções). Conjugou o primeiro verbo no gerúndio, e, ao melhor estilo telemarketing, repetiu 22 vezes a expressão “seguir mudando”.

Serra tentou por todos os meios escapar do binônio mudança/continuidade. Praticamente não falou do assunto. Preferiu o tom motivacional, para dar esperança aos correligionários. Usou e abusou das formas verbais “vamos” (18 vezes) e “acredito” (12 vezes).

Curiosamente, foi a petista e não o tucano quem mais usou as conjungações de “poder”, nas formas “podemos” e “pode”: foram 15 vezes, contra apenas 4 de Serra, cujo lema de campanha é “o Brasil pode mais”.

No mais, os três presidenciáveis praticamente se equivaleram nas citações de temas que aparecem entre as principais preocupações dos eleitores nas pesquisas de opinião: educação, saúde, segurança, emprego. Houve apenas diferenças de intensidade nos discursos.

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Dilma, que vai pior no eleitorado feminino do que no masculino, falou mais de mulheres do que seus adversários. Mas fez um discurso em que, comparativamente aos rivais, faltaram as palavras “gente”, “povo” e “pessoas”.

E como o cachimbo entorta a boca, as décadas de militância petista se insinuaram nas palavras de Marina. Mais do que a neopetista Dilma, filiada há 10 anos, a candidata do PV repetiu o jargão-símbolo do PT sem se policiar: foram 18 “companheiro/a/s”, contra 13 da adversária.

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