Laissez pas faire

Jose Roberto de Toledo

16 de maio de 2011 | 16h05

Dominique Strauss-Kahn, o chefão do FMI preso em Nova York sob acusação de atacar sexualmente uma camareira de hotel, contou com o “laissez-faire laissez-passer” da imprensa francesa nas questões de comportamento pessoal, especialmente a parte do “deixa passar”. Rebatizado “DSK” pela mídia, uma honraria dada aos famosos cujos nomes não cabem em manchetes, ele obteve dos franceses um salvo-conduto político mesmo depois de ter sido acusado de agarrar uma escritora em 2002 e de ter seduzido uma subordinada no FMI em 2008.

Na véspera de sua prisão, uma jornalista francesa escreveu artigo para o jornal inglês “The Guardian” no qual afirmava que seus conterrâneos, ao contrário dos anglo-saxões, não levavam em conta o comportamento sexual de seus líderes na hora de votar. E lembrava que ele aparecia como favorito nas pesquisas de intenção de voto para a sucessão do presidente Sarkozy, mesmo após admitir ter um caso extra-conjugal com a economista Piroska Nagy. Havia uma ponta de orgulho e superioridade no artigo.

Mais clarividente foi seu colega que escreveu, quando da nomeação de DSK para o comando do Fundo Monetário Internacional, que as coisas seriam diferentes por lá, onde prevalece uma moral puritana, mais próxima daquela que provoca a renúncia de candidatos a presidente pegos com as calças arriadas, do que da liberalidade latina que garante ao fogoso premiê italiano Silvio Berlusconni eleições e reeleições.

Após o escândalo, é unânime na França, mesmo entre os admiradores do economista, a opinião de que as chances de DSK eleger-se presidente são inversamente proporcionais ao seu drive sexual. Politicamente, pouco importa que ele venha a ser inocentado das acusações de abuso, tentativa de estupro e cárcere privado. De orgulho, virou vergonha nacional.

Não se trata de um problema de liberalidade versus licenciosidade, mas da diferença entre o que é moralmente aceito em uma cultura e do que é simplesmente ilegal e criminoso. Casos extra-conjugais não são crime na França, nem na Itália nem nos EUA. Obrigar uma mulher a fazer sexo contra sua vontade é. Pagar para uma menor de idade satisfazer seus desejos também.

No caso Piroska, o problema não era a relação em si, mas a suspeita de que DSK tivesse usado sua ascendência funcional, como chefe do FMI, para seduzir uma subordinada. Ele foi inocentado em uma investigação interna do Fundo.

Desta vez, as acusações são muito mais graves. A camareira, uma imigrante africana de 32 anos, diz que falou em voz alta “housekeeping” antes de entrar na suíte de US$ 3 mil a diária. Ninguém respondeu. Ela entrou, deixou a porta aberta, como é política do hotel (da rede francesa Meliá), e se dirigiu ao quarto. Nesse momento, relata ela, um homem nu surgiu do banheiro, trancou a porta da suíte, empurrou-a para a cama, subjugou-a, sodomizou-a e obrigou-a a fazer sexo oral. Horas depois, ela identificou DSK entre outros homens na fila de reconhecimento numa delegacia de polícia.

O juiz negou fiança a DSK por vários motivos, mas principalmente devido à possibilidade de fuga e à dificuldade histórica dos EUA de conseguirem a extradição de acusados de crimes sexuais, como o cineasta Roman Polanski. Se o pedido de liberdade tivesse sido julgado no Brasil, talvez a história fosse diferente. O médico fugitivo Roger Abdelmassih que o diga.

Estará o chefe do FMI sendo vítima de um complô internacional para inviabilizar sua candidatura a presidente, como alguns (poucos) políticos franceses chegaram a dizer? Ou será mais um caso de falsa acusação, uma tentativa de extorsão sexual que deu errado?

As evidências levantadas até agora pela imprensa norte-americana não dão suporte a essas versões. DSK saiu tão apressado do hotel após o episódio que esqueceu seu celular. Foi preso a bordo de um vôo internacional, quando tentava deixar os EUA. Entrevistados, vizinhos e colegas de trabalho da camareira foram unânimes em elogiar sua conduta antes do caso.

Quanto a ser este mais um sintoma do moralismo exagerado da sociedade norte-americana, é bom lembrar que um dos mais fortes presidenciáveis republicanos que ainda restam na disputa contra Barack Obama é o ex-presidente do equivalente à Câmara dos Deputados dos EUA Newt Gingrich. Ele é divorciado duas vezes, e casado três. Um caso tornado público com sua mais recente esposa foi a causa do fim do casamento anterior. Nem por isso Gingrich pulou fora da corrida presidencial, como já fizeram o milionário Donald Trump e o mais bem colocado nas pesquisas, Mike Huckabee.

A humilhação pública de DSK, mesmo que injusta, talvez sirva de aviso a poderosos, tanto latinos quanto puritanos, que em caso de abuso sexual contra mulheres vulneráveis a eles vale o contrário do ditado: Ne laissez pas faire, ne laissez pas passer.

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