IDH amadurece, se sofistica mas perde simplicidade

Jose Roberto de Toledo

04 de novembro de 2010 | 16h41

Ao fazer 20 anos, o Índice de Desenvolvimento Humano amadureceu, se sofisticou, mas perdeu em simplicidade e universalidade -duas marcas do seu sucesso. Nas últimas décadas o IDH mudou o paradigma do que seja desenvolvimento e deu início a uma onda de índices que medem de tudo um pouco.

Antes do IDH era o PIB per capita, e só. Até 1990, toda medição de desenvolvimento dos países era feita apenas pelo crescimento do seu Produto Interno, dividido pela população. Era uma medida exclusivamente econômica, que tinha no aumento da renda um fim em si mesmo.

O que o paquistanês Mahbub ulHaq e o indiano Amartya Sen conseguiram à época foi um feito, que hoje parece trivial: sintetizar em um só número uma medida de desenvolvimento que tinha o ser humano no centro, e abrangia as dimensões econômica, de longevidade e educação.

A “mágica” foi juntar indicadores com escalas tão diferentes quanto anos de vida, dólares e porcentagens em uma régua comum, que varia de 0 a 1. As três dimensões representadas são as mais básicas: viver o bastante, ter acesso ao conhecimento e um padrão de vida digno.

O IDH fez tanto sucesso que rendeu um Prêmio Nobel de Economia a Sen. Sua engenhosidade foi copiada, adaptada, recriada. O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), lançado pelo governo brasileiro em 2007, é um dos muitos filhos do IDH.

Em seu 20º aniversário, os criadores do IDH substituíram três dos seus quatro indicadores, mudaram sua fórmula de cálculo e, de quebra, lançaram três novos índices, complementares. Em contrapartida, em vez de 184, seu ranking agora só compreende 169 nações.

Na dimensão educação, saem o analfabetismo e a taxa de matrícula. Em seu lugar, entram a média de anos de estudo da população adulta e os anos esperados que um aluno deve passar na escola. Foi uma boa troca, embora este último indicador seja de difícil compreensão.

A média de anos de estudo é uma medida de estoque mais completa do que o analfabetismo. Na verdade, o inclui. É o indicador em que o Brasil vai pior: 102º lugar no ranking, com 7,2 anos, em média. Aí estão incluídos desde jovens de 25 anos com nível superior até idosos analfabetos. É um indicador que custa a mudar.

Os anos esperados que o aluno deve passar na escola é uma medida de fluxo, que pretende aferir como a população jovem de um país está evoluindo no acesso ao conhecimento. Nesse indicador, o Brasil vai melhor, fica na 54ª posição, com 13,8 anos (quanto mais, melhor).

Se fôssemos traduzir esses números em pessoas, seria como uma família cujos pais passaram muito pouco tempo na escola mas conseguiram colocar todos os filhos na faculdade.

Em longevidade, permanece a esperança de vida ao nascer, medida na qual o Brasil evolui a passos de cágado: 72,9 anos e 76ª colocação.

Em renda, saiu o PIB per capita, e entrou a Renda Nacional Bruta per capita, que inclui transferências de não-residentes. O Brasil tem US$ (PPC) 10,607 mil e aparece em 70º lugar.

No novo IDH-D, que inclui as desigualdades internas dos países, o Brasil perde 15 posições no ranking e 27,2% do valor do seu IDH. O que mais contribui para isso é a desigualdade de renda.

No IDG (Índice de Desigualdade de Gênero), o Brasil fica em 80º lugar entre 138 países. Perde 63% do seu potencial de desenvolvimento humano principalmente por causa da baixa representatividade política das mulheres e da alta incidência de gravidez entre adolescentes.

No índice de pobreza multidimensional, o Brasil fica em 39º lugar, entre 104 países. Para ser um “multipobre”, alguém tem que ter privações em 30% da soma dos valores dos 10 indicadores que compõem o índice. Nada menos do que 8,5% dos brasileiros se enquadraram nessa categoria.

É um porcentual maior do que o medido, por exemplo, pela linha de pobreza do Banco Mundial (US$ (PPC) 1,25 por dia), segundo a qual 5,2% dos brasileiros seriam pobres.

O mérito do IDH é mostrar a evolução de um povo em várias dimensões, não só na econômica. Embora os brasileiros estejam contentes com seus atuais níveis de consumo, o índice e seus complementos mostram que ainda falta muito para o pleno desenvolvimento do país.

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