Emenda Black Bloc

Jose Roberto de Toledo

09 de setembro de 2013 | 00h37

Os políticos sobreviveram ao Sete de Setembro. E até ganharam mais independência. Sem gritar, apostaram na surdina que os protestos do dia da Independência não alcançariam o mesmo nível da maré humana de junho. De fato, não chegaram nem perto. Foi uma onda violenta, mas sem volume.

Do ponto de vista da opinião pública, os protestos viraram um estorvo provocado por um punhado de indignados mascarados. São cada vez mais violentos, e reprimidos cada vez com mais violência pela polícia. Prisões se multiplicam, mas a reação aos excessos policiais não é ampla nem solidária ao ponto de inibir a ação da tropa de choque. A repressão está ganhando essa.

A primeira manifestação em massa da classe média em duas décadas foi sequestrada pelos Black Blocs e assemelhados. Perdeu a força de uma ação coletiva. As imagens de bombas, correrias e apedrejamentos transmitidas sem cortes pela internet vão se repetindo até perderem a novidade, o interesse e a audiência.

Os anarquistas são bons de tática, mas péssimos de estratégia. Ao radicalizarem suas ações, capturaram o movimento e alienaram as outras facções que davam volume às manifestações. Perderam a massa que os protegia. Isolados, são alvo fácil da polícia.

Salvo aparecer um mártir, o ciclo das manifestações tende a se fechar da mesma maneira que começou. Com a narrativa dos protestos enfatizando cada vez mais a violência. Em vez de baderneiros, agora eles são identificados como Black Blocs – mesmo quando não são. Mudou a palavra, não o significado.

Em meio à fumaça, repórteres são hostilizados por manifestantes e agredidos por policiais. Quando o narrador é vítima, seu relato ganha ênfase na descrição da violência. Tudo isso afasta os pacatos marchadores de junho do palco dos protestos.

Perde-se a rua – mesmo que temporariamente – como catalisador de uma mobilização ampla da sociedade. Sem ela, perdem força as reivindicações por reformas da estrutura de poder. Os políticos, com raras exceções, estão em dívida com os Black Blocs.

A ressaca

À medida que a onda reflui, os efeitos da ressaca se tornam visíveis. Pichações e vitrines quebradas são de menos. O maior estrago ainda está por vir. É que alguns dos alvos dos protestos saíram deles mais poderosos do que entraram – e sem tomar pedrada nem respirar gás lacrimogênio. O Congresso e os partidos estão mais fortes e, possivelmente, endinheirados.

No meio da confusão que virou a base governista depois que a popularidade de Dilma Rousseff despencou, deputados aprovaram o “orçamento impositivo”. É um nome pomposo para garantir a destinação de até R$ 7 bilhões por ano aos seus currais eleitorais – além, é claro, de comprar novos.

Se passar no Senado, a proposta vai criar, na prática, 594 Casas da Moeda. Os 513 deputados e 81 senadores vão dispor de R$ 12 milhões cada um. O resultado será o aumento da desigualdade regional e a perpetuação no poder de quem imprime esse dinheiro.

Levantamento de Daniel Bramatti e Diego Rabatone, do Estadão Dados, mostra que, atualmente, menos da metade dos municípios brasileiros recebe recursos de emendas parlamentares. Só recebem aqueles lugares onde o deputado eleito é bem votado ou onde ele pretende cooptar o prefeito para se reeleger. Os outros 51% de municípios não vêem um tostão sequer.

Com o orçamento impositivo a desigualdade vai piorar, porque o valor destinado pelos parlamentares vai aumentar ridiculamente. Uma minoria vai receber muito, e muitos não receberão nada. Pior, a força de quem já está no poder será ainda maior do que a dos aspirantes ao cargo, diminuindo a renovação do Congresso.

Por agradecimento, os parlamentares deveriam mandar uma emendinha para ajudar o movimento Black Bloc.