E o Oscar da CPI vai para…

Jose Roberto de Toledo

18 de junho de 2012 | 10h57

Em tempos de Rio+20, até as emas dos jardins do Alvorada sabiam que a CPI do Cachoeira seria um palco. Que seria apenas isso, até as carpas do espelho d’água do Congresso desconfiavam. A única dúvida era sobre quem brilharia sob os holofotes. Por ora, o maior êxito não se deu na frente, mas atrás das câmeras. E não foi por falta de esforço dos atores.

Deputados e senadores gritaram, tchutchucaram, xingaram-se uns aos outros. Mas o único brilho que conseguiram foi o do suor na testa dos mais exaltados. A CPI não produziu nenhuma informação relevante, nenhum fato novo, nenhuma prova concreta. Pudera, nenhum desses critérios entra no julgamento de desempenho dos parlamentares há muitas CPIs. Só vale o jogo de cena. Aí apareceu um azarão.

De todas as apresentações na comissão até agora, a que merece o oscar de melhor ator coadjuvante é a do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz. Tido e havido por insípido e inodoro, o petista demonstrou veia artística inaudita. Falou com convicção, demonstrou estudada indignação e arrebatou o prêmio quando ofereceu a inevitável quebra de seus sigilos -coisa que seu concorrente, o governador tucano-goiano Marconi Perillo, ingenuamente recusara na véspera.

O mérito da atuação, todavia, cabe a quem dirigiu a cena. Reportagens abundantes atribuíram a performance de Agnelo à consultora Olga Curado, autora de um agora mítico método de “media training”. Sessões e sessões de preparação sobre como se comportar no palco da CPI explicariam o show do governador do DF. Se non è vero, è ben trovato – a clientela da Curado & associados vai aumentar. E seu “Porta-vozes não nascem prontos”, um manual prático de como lidar com jornalistas, é candidato a best-seller em Brasília.

Enquanto isso, não muito longe dali, no Tribunal Regional Federal da primeira região, o desembargador Tourinho Neto ensaiava mandar as únicas provas contundentes contra o esquema Cachoeira para a vala coletiva onde jazem outras operações da Polícia Federal como Castelo de Areia e Satiagraha. Em comum, além da suposta falta de embasamento jurídico, essas operações miraram grupos empresariais poderosos.

Os integrantes da CPI não gostaram de dividir a cena com os magistrados e trataram logo de “adiar” a convocação do empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta, uma bem-relacionada construtora que, depois de conseguir centenas de milhões de reais em contratos de obras públicas nos últimos anos, foi inabilitada pelo governo federal, por inidônea.

Certamente a precaução demonstrada pela maioria dos parlamentares da CPI nada tem a ver com a tal “bacada do cheque” a que se referiu o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). Tampouco invoca a prática de outra CPI, esta da Câmara Municipal de São Paulo, cujo presidente é investigado pelo Ministério Público por supostamente achacar empresas e empresários que não quisessem aparecer no relatório final da comissão. A CPI não se presta a nada disso. Resta saber se presta para algo.

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