Dilma, Obama e o bacalhau

Jose Roberto de Toledo

15 de maio de 2011 | 23h50

As eleições municipais são as maiores e mais profundas do calendário político brasileiro. Envolvem mais candidatos, debatem o cotidiano dos eleitores e criam a rede de apoios necessária para eleger deputados, governadores e senadores dois anos depois.

O DEM deu um passo certo para a cova ao perder quase 300 prefeituras há três anos. O PMDB começou a ganhar espaço no futuro governo Dilma ao crescer no plano municipal em 2008. O PT se preparou para eleger a maior bancada da Câmara em 2010 ao aumentar em um terço seu número de prefeitos no pleito anterior.

A eleição municipal é especialmente importante para os partidos-bacalhau, aqueles que têm corpo volumoso, mas não têm cabeça. Se têm, nunca ninguém viu.

Faz parte da estratégia dessas siglas jamais apresentar um líder capaz de vencer uma eleição presidencial. São como carga solta no navio, rolando de um lado para outro de acordo com as ondas e a destreza do capitão da vez.

Esses partidos têm seu valor medido pelo tamanho de sua bancada no Congresso. Não importa se o embrulho tem mais filé ou rabo, o bacalhau se compra pelo peso. Sem seus votos, nenhum governo consegue maioria parlamentar. Sem seu tempo de TV no horário eleitoral, é difícil eleger um presidente.

Dada a feudalização da Câmara dos Deputados, com cada vez mais vereadores federais eleitos a cada quatro anos, construir um alicerce municipal com muitos prefeitos e vereadores é condição necessária para um partido eleger mais deputados.

Daí o frenesi em torno do novo PSD, o troca-troca partidário promovido pelo PMDB. Tudo passa pela eleição de 2012.

Os bacalhaus atraem vira-casacas porque, neles, a fila anda (ou parece andar). Tome-se o caso de São Paulo. Enquanto PT e PSDB alternam sempre os mesmos nomes nas chapas de prefeito e governador, sufocando o surgimento de novas lideranças, o PMDB abre espaço para o ex-tucano e ex-PSB Gabriel Chalita.

Ele foi um deputado federal bem votado na cidade de São Paulo, teve quase 135 mil votos, mas perdeu para Tiririca, Erundina e Jilmar Tato. É uma cara nova e pode virar opção do governador Geraldo Alckmin, se o candidato a prefeito do PSDB, seja ele quem for, não emplacar.

Mas essas articulações e candidaturas dependem de outros dois fatores, tão ou até mais importantes: a economia e a popularidade dos governantes.

A aprovação do prefeito Gilberto Kassab (ex-DEM) é inversamente proporcional ao número de vezes que ele aparece na imprensa articulando um novo partido enquanto a cidade alterna inundações com falta de água. Ele tem mais avaliações negativas do que positivas e, a continuar assim, só contribuirá financeiramente para sua sucessão.

No caso de Dilma Rousseff, uma coisa está amarrada à outra. Sua influência eleitoral estará limitada pelas alianças que compõem sua base no Congresso; sua popularidade dependerá do desempenho da economia.

Neste domingo, o ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, explicou em um artigo no New York Times por que os EUA continuarão inundando o mundo de dólares: para recuperar a economia norte-americana e produzir os empregos que poderão ou não reeleger Barack Obama em 2012.

E se isso provoca a valorização das moedas dos países emergentes, como o real brasileiro, e atrapalha suas exportações? Nas palavras de Krugman: não é problema dos EUA.

Isso significa que Dilma e equipe continuarão brigando em 2012 para baixar a inflação e evitar que o déficit das contas externas seja agravado por um saldo comercial negativo. Implicará mais medidas protecionistas contra a Argentina, por exemplo, e mais pressão para controlar os gastos públicos.

Em resumo, o cenário econômico externo para 2012 não ajuda em nada Dilma a manter a economia acelerada e, portanto, poderá diminuir sua influência na eleição de prefeitos e vereadores. Melhor para os bacalhaus, que ganharão importância.

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