Desinteresse pela eleição maior entre pobres e ex-petistas ajudou Doria a se eleger já no primeiro turno

Jose Roberto de Toledo

04 de outubro de 2016 | 03h08

O maior desinteressado pela eleição municipal foi o eleitor pobre. Pesquisas Ibope feitas nas vésperas do pleito nas principais capitais brasileiras revelam que eleitores da base da pirâmide de renda declararam pouco ou nenhum interesse pela eleição em taxas de 14 a 27 pontos maiores do que os mais ricos.

A maior diferença aconteceu no Rio de Janeiro: 61% dos cariocas com renda até um salário mínimo se disseram desinteressados pelo pleito, contra apenas 34% dos que têm renda acima de 5 salários. Em São Paulo, o desinteresse atingiu 55% e 39%, respectivamente. Mais do que uma curiosidade, foi crucial para o resultado.

Entre os paulistanos, o desinteresse se traduziu em uma maior taxa de votos brancos e nulos na periferia pobre da cidade do que nos bairros mais ricos do centro expandido. Na fronteiriça Guaianazes, no extremo da zona leste, 21,4% dos eleitores anularam ou votaram em branco. Nos Jardins, só 6,9%. Isso teve um impacto determinante no resultado da eleição.

Os redutos do petismo em São Paulo tiveram proporcionalmente menos votos válidos do que os antipetistas. Foi fundamental para João Doria (PSDB) ter conseguido o feito histórico de ser o pioneiro prefeito eleito no primeiro turno. Fossem as taxas de brancos e nulos semelhantes às do centro da cidade, e tivesse o excedente de votos inválidos se distribuído proporcionalmente aos candidatos, talvez a eleição tivesse dois turnos.

Doria não conseguiu maioria absoluta de votos em 40% das zonas eleitorais, justamente as periféricas onde os votos brancos e nulos explodiram. Por isso, essas áreas acabaram pesando menos no cômputo geral de votos da cidade do que costumavam pesar. Significa que tão importante quanto o discurso antipolítica de Doria foi a desilusão do eleitor da periferia com o PT.

Nem mesmo o fato de haver um prefeito petista candidato à reeleição e duas ex-prefeitas que eleitas pelo PT animou esses eleitores descontentes a votar em um deles. Esse fenômeno ajuda a explicar por que João Doria (PSDB) foi o mais votado em 56 das 58 zonas eleitorais da cidade, inclusive na área petista.

Em Guaianazes, onde candidatos a prefeito petistas haviam vencido desde 2004, Haddad ficou apenas em quarto lugar. Os ex-petistas se dividiram entre Doria, Luiza Erundina, Marta Suplicy e Celso Russomanno. Mais importante, 29 mil eleitores preferiram anular ou votar em branco do que em um deles (7 mil a mais dos que votaram em Russomanno, o segundo colocado lá). Houve assim menos votos válidos e Guaianazes pesou menos no total da cidade.

Bom para Doria, que teve 35% dos votos válidos ali – uma taxa que, embora lhe garantisse o primeiro lugar com folga, seria insuficiente para elegê-lo já no primeiro turno. Com os votos válidos de Guaianazes em baixa, cresceu o peso proporcional dos Jardins, onde o tucano teve 72% dos votos. E fez-se história.

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