De achacados e achacadores

Jose Roberto de Toledo

21 de março de 2015 | 19h41

Se o Twitter servisse de termômetro, Cid Gomes teria se saído menos pior aos olhos do público do que Eduardo Cunha, no bate-boca entre o ex-ministro da Educação e o presidente da Câmara dos Deputados. Na mundo real, Cid perdeu o cargo por causa de quem chamou de achacador. No virtual, o peemedebista teve uma menção positiva para sete negativas – segundo levantamento do Ibope DTM. No caso do cearense a proporção também foi negativa, mas “só” de 2 para 1. Cunha não perdeu o sono por causa disso.

O tuíte mais popular sobre o presidente da Câmara foi escrito pela ex-deputada Luciana Genro, do PSOL gaúcho: “Parece que Dilma entregou a Presidência para Eduardo Cunha; agora ele anuncia demissão de ministro”. É um bom resumo do que foi a repercussão do episódio na opinião pública: Cunha reforçou sua fama de mau às custas do enfraquecimento do governo.

O caso poderia virar episódio de House of Cards, o seriado político mais badalado do Netflix. Na série, o protagonista Frank Underwood vive às últimas consequências o seu moto: “As pessoas respeitam o poder, não a honestidade”. Underwood sai da liderança do partido governista no Congresso para a Presidência dos EUA sem receber nem sequer um voto. Ao tomar posse da Casa Branca, zomba: “Democracia é tão superestimada”.

Em Brasília, Cunha deu mais uma demonstração de força graças a Cid. Fez média com os colegas ao posar de defensor da categoria e ainda ganhou manchetes. Não agradou todo o eleitorado, só a parte que lhe interessa. De quebra, obscureceu a divulgação do plano anticorrupção do governo. Cunha recebeu mais do que o dobro de menções no Twitter do que o pacote de Dilma.

Esse caso mostra, pela enésima vez, que a principal força de oposição à presidente e ao PT é interna, não externa. O PMDB e seus líderes são capazes de impor mais desgaste ao governo do que qualquer partido de oposição, muito mais do que o PSDB. Não que os peemedebistas precisem se esforçar para isso.

Na maioria das vezes, os dilmistas oferecem a oportunidade para o PMDB dar o troco e sair por cima. Isso aconteceu sempre que os petistas tentaram uma manobra para enfraquecer o suposto aliado. Cunha e Renan Calheiros se elegeram presidentes da Câmara e do Senado, inviabilizaram o novo partido de Kassab – que o PT sonhava contrapor ao PMDB -, criaram CPIs que são uma espada sobre a cabeça do governo e guardam na manga a carta do impeachment. Como diz Frank, “amigos viram os piores inimigos.”

Onde não estamos

Foi uma trapalhada de comunicação. Por acaso, conheceu-se o diagnóstico – ou um diagnóstico – que o primeiro escalão federal faz da situação política do governo: “Caos”. São oito páginas sobre o que seriam as causas que levaram Dilma a uma impopularidade sarneyziana, e raras menções à economia. Quando muito, para dizer que a militância petista não compreendeu o ajuste proposto, ou que não adianta falar que a inflação está sob controle.

Ao menos a presidente desqualificou o documento. Pelo que disse em sua entrevista coletiva e reforçou em declarações subsequentes, Dilma parece ter se dado conta que não lhe resta outra saída senão aprovar o ajuste fiscal de Joaquim Levy no Congresso – o que significa, basicamente, cortar gastos. E que não há como conseguir os votos necessários para aprovar os cortes sem engolir sapos do PMDB. Azia é melhor do que inanição.

A culpa é do Supremo

Seminário conjunto da FGV e da USP sobre reforma política. Alguns dos melhores cientistas políticos do país, e uma conclusão: a culpa é do Supremo. Não tivessem os ministros do tribunal acabado com a cláusula que barrava os partidos nanicos nem dado tempo de TV e dinheiro a partidos de ocasião, não se falaria em reforma política. Aliás, estudo apresentado lá mostra que, pela história, não se falará mais no assunto já em agosto. Ainda bem.

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