Contágio revolucionário

Jose Roberto de Toledo

27 de fevereiro de 2011 | 23h00

As revoltas no mundo árabe provam que imprensa e oposição são vitais para sustentar um regime. Nada a ver com bajular os poderosos de plantão. Ambas só funcionam quando são livres e críticas. Só assim criam canais de debate e aliviam as tensões sociais que se acumulam ao longo do exercício do poder.

Ditadores de hoje, monarcas do século 19 e dirigentes comunistas dos anos 80 não se deram conta que tampar essas válvulas é o mesmo que selar uma panela de pressão. Quando a temperatura sobe, o ar se expande e, sem saída, só lhe resta explodir o que o contém.

Aí não adianta pintar o cabelo para fingir que o tempo não passou. Mubarak aprendeu isso no Egito, Kadafi está aprendendo na Líbia.

O aumento de preço dos alimentos esquentou a insatisfação popular ao ponto de ebulição nos países árabes. Foi o último tapa no fundo da garrafa que fez esparramar todo o katchup. Por que?

Não poder prover sua família de comida é um empurrão às praças para qualquer pai, marido ou filho. Em uma sociedade machista, se não for um provedor, o homem vê ameaçado seu status de chefe familiar. Como os ditadores, fará quase qualquer coisa para sustentá-lo.

A fome só não apela mais ao instinto de sobrevivência humano do que o risco iminente de morte violenta. Daí ser o principal recurso das ditaduras promover a insegurança da população.

Não funcionou na Tunísia nem no Egito porque protestar não pareceu arriscado demais aos revoltosos. Dezenas de mortos entre centenas de milhares de manifestantes não configura uma taxa de mortalidade paralizante quando há perspectiva de derrubar o ditador.

Kadafi viu o que aconteceu aos vizinhos e recorreu à manobra mais violenta que pode comandar: fuzilar pessoas a esmo nas ruas. Usou o terror como contraponto às cenas heróicas transmitidas pela TV da multidão defenestrando outros tiranos. É como se desafiasse os civis: “Sua revolução custa uma carnificina, pagam para ver?” Estão pagando.

Quando a turba perde o medo, fica quase impossível controlá-la. Depois que a população já havia sido contaminada pelo bombardeio de imagens e notícias, as ditaduras árabes em processo de queda censuraram a imprensa estrangeira, culparam a Al-Jazeera e desligaram a internet. Foi inútil.

Se regimes políticos sem mecanismos de distensão social criaram o caldo de cultura onde nasceu o germe revolucionário, a Al-Jazeera foi o mosquito que transmitiu esse vírus de um país árabe a outro. A picada via satélite inoculou coragem em populações que estavam submetidas ao mesmo tipo de flagelo. Virou uma epidemia.

O contágio de ideias acompanha o homem desde que ele começou a se espalhar sobre a terra. Da tecnologia à política, a cultura humana se propaga por imitação. Se deu certo ali, por que não fazer aqui?

No final dos 80, após o colapso do comunismo na URSS, a “cortina de ferro” desmanchou-se como se fosse de espuma. Regime após regime, ditador após ditador, todos caíram como dominós, em uma rapidez que deve ter deixado a CIA se roendo de inveja.

A diferença, desta vez, foi a coordenação exercida via redes sociais. As primeiras manifestações no Cairo foram marcadas pelo Facebook. Quando se deu conta de que havia sido driblada, a repressão já não tinha mais o que fazer senão desconectar a internet. Era tarde demais.

Nos países da região onde os governantes tentaram promover a distensão em vez da repressão, as manifestações de revolta não ganharam, por ora, escala de revolução. Na Jordânia, o rei dissolveu o governo; na Arábia Saudita, anunciou pacote bilionário de bondades.

Eles procrastinaram, mas não resolveram o problema que mais ameaça a estabilidade do regime: a ausência de um sistema democrático com liberdade de expressão e de oposição.

Pode-se argumentar que outros regimes tampouco dispõem disso e aparentam estabilidade. Mas a todos falta ao menos um dos outros três elementos que detonaram a crise árabe: na China não há fato econômico grave, em Cuba e na Coreia do Norte não há Facebook nem Al-Jazeera.

A exceção é o Maranhão.

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