Com desejos contraditórios, maioria dos eleitores pensa pouco na eleição

Jose Roberto de Toledo

18 de fevereiro de 2014 | 20h00

A

Documento

mostra estabilidade tanto das intenções de voto para presidente quanto da avaliação do governo de Dilma Rousseff. Em outras palavras, a oposição tem sido incapaz de catalisar o desejo de mudança expresso pelos eleitores, e o governo não conseguiu faturar o aumento da confiança do consumidor registrado no começo do ano pela Ibope/CNI.

As taxas – eleitoral e de aprovação – de Aécio Neves (PSDB) e de Dilma, respectivamente, oscilaram dentro da margem de erro. A margem é de 2,2 pontos, e vale para a pesquisa atual e para a anterior. Ou seja, devem ser somadas, o que dá 4,4 pontos. Como tanto Aécio quanto Dilma perderam menos do que isso, não se pode afirmar com certeza que ambos caíram. E, mesmo que tivessem, um ponto isolado na curva não configura uma tendência.

Não é por isso que os resultados da pesquisa MDA/CNT devam ser desconsiderados. A pesquisa confirma o que Ibope e Datafolha já haviam apontado: 62% dos brasileiros preferem que o próximo presidente “mude totalmente a forma de governar” ou pelo menos “continue algumas ações e mude a maioria”.

É uma eleição “mudancista”, condição necessária mas insuficiente para a oposição. A condição suficiente seria um ou mais candidatos oposicionistas conseguirem conquistar a confiança do eleitor para serem os agentes dessa mudança. Até agora isso não aconteceu – o que não significa que ainda não possa acontecer.

Hoje, uma parte grande dos que desejam mudança prefere Dilma. É uma aparente contradição, mas é assim que funciona o processo decisório daquele eleitor que não é partidário: sempre pela exclusão da pior opção, até chegar à menos pior.

Significa dizer que, no momento do voto, esse eleitor vai decidir se prefere mudar mesmo ou, por falta de confiança nos outros candidatos, vai acabar optando por Dilma para garantir o que já tem. Não adianta, porém, forçar análises para antecipar essa decisão. A cada pleito, o eleitor “independente” (que não é petista nem antipetista) tem demorado mais para decidir.

Nesse momento, só 4 a cada 10 eleitores têm o nome de um presidenciável na ponta da língua. Somados, Dilma, Aécio e Eduardo Campos (PSB) têm menos de 30% das intenções de voto espontâneas. Apenas considerando-se as menções a quem já disse que não será candidato a presidente (como Lula, José Serra e Geraldo Alckmin) e a uma possível alternativa a Campos, Marina Silva, chega-se a 40%.

Isso significa que a maioria absoluta dos eleitores, pelo menos 60%, só consegue dizer em quem votaria após ler os nomes dos candidatos em uma lista. Ou seja, só vão pensar no assunto quando o pesquisador lhes apresenta o problema. Não refletiram sobre a eleição e acabam citando os nomes mais fortes em sua memória. Esse é um voto que pode mudar nos próximos meses.

O resumo da pesquisa MDA/CNT é que a situação não é confortável para nenhum dos candidatos. Dilma estancou. Não fica mais popular do que está desde outubro. Se não ganha novos eleitores, corre o risco de perder parte dos que já tem. Mas os oposicionistas não conseguem entusiasmar o eleitorado independente, apenas quem já é antipetista.

Esse impasse vai precisar de um fato novo para ser superado. Pode ser a melhora ou a piora da economia, um eventual racionamento de energia, um resultado muito positivo ou muito negativo na organização da Copa, ou uma novidade trazida pela campanha eleitoral quando ela começar na TV, em agosto. Até lá, permanece a contradição: mudança com mais do mesmo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.