Ciro surfa onda anti-Congresso

Jose Roberto de Toledo

12 de março de 2010 | 19h38

Em entrevista nesta sexta à rádio CBN, Ciro Gomes (PSB-CE) disse: “Nunca mais vou ser deputado na vida. Não tenho mais paciência de passar nove horas conversando fiado e não fazendo nada pela vida de ninguém”. Ele foi sincero.

Em pouco mais de três anos de mandato na Câmara, Ciro faltou a 39% das sessões da Câmara (4 de cada 5 faltas foram justificadas), esteve ausente em 36 de 88 votações que foram ao plenário. Quando presente, usou o microfone 39 vezes, a maioria delas durante a ordem do dia. Foi vice-líder do bloco governista.

Como deputado, apresentou 40 proposições, de requerimento de informações ao Banco Central a “voto de louvor pela realização do VII Encontro Estadual de Prostitutas do Ceará”. Usou R$ 208 mil das verbas indenizatórias a que os deputados têm direito -o que, registre-se, fica abaixo da média dos seus colegas.

Ciro está longe de ter sido um “cabeça do Congresso”, para usar uma expressão consagrada pelo Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). Como Lula, o presidenciável do PSB tem um perfil muito mais de Executivo do que de Legislativo. Mas não é só isso. Ciro está em campanha, e cada palavra faz parte de um discurso que visa a eleição.

Convém lembrar que apenas 14% dos eleitores brasileiros aprovam o desempenho do Congresso Nacional (Datafolha, fevereiro de 2010). Logo, ao falar mal da própria função, Ciro ganha mais pontos do que perde. Talvez, alguns dos 668 mil cearenses que o elegeram deputado federal possam se contrariar, mas o saldo, do ponto de vista eleitoral, é positivo.

Se ao transferir seu título para São Paulo ele já fechara portas no Estado onde surgiu para a política, ao declarar sua objeção ao cargo de deputado Ciro reduz ainda mais suas possibilidades eleitorais: disputar para presidente ou para governador de São Paulo (o Senado é um clube mais fechado, mas não muito diferente da Câmara).

É um tiro longo para quem não chega, por enquanto, a 20% das intenções de voto nem para um cargo nem para outro. Mas é o estilo de Ciro, sempre audacioso. Ele parece realmente acreditar que José Serra (PSDB) vá desistir da disputa e que sua saída provocará uma revolução da corrida eleitoral. E, numa revolução, tudo pode acontecer. Ainda assim, é um tiro longo.

Mais informações sobre o desempenho parlamentar de Ciro podem ser encontradas em sua página no site Excelências (da Transparência Brasil) e no próprio portal da Câmara dos Deputados, na seção de pesquisas sobre os parlamentares.

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