Brasileiro, um desonesto?

Jose Roberto de Toledo

19 Dezembro 2016 | 00h10

Nunca o Brasil julgou seus representantes tão severamente. O Congresso bateu recorde de avaliação negativa, a popularidade do governo federal está ladeira abaixo, mas o fenômenos é muito mais amplo. Pesquisa inédita do Ibope – publicada aqui com exclusividade – revela que os homens públicos brasileiros de modo geral são considerados menos honestos do que os de outros países por inéditos 76% da população que representam. Sim: 76%.

Só 19% acham que os políticos nativos e os estrangeiros se equivalem em honestidade. Raros 3% dizem o contrário, que os brasileiros são mais honestos do que os do exterior. Sim: 3%.

A distribuição das respostas hoje já é chocante, com 3 em cada 4 entrevistados achando que a desonestidade é uma jabuticaba, uma fruta que só dá por aqui – ao menos com tanta abundância. Mas a comparação é ainda mais dramática quando feita no tempo.

Se a desconfiança em relação aos políticos sempre houve, faz poucos anos que ela viralizou e se tornou pandêmica.

Em 2006, o Ibope fez a mesma pergunta aos brasileiros. Havia então um equilíbrio entre as respostas: 47% achavam que os políticos nacionais eram tão ou menos desonestos que os estrangeiros, contra 45% que os avaliavam como mais desonestos. Os outros 8% não sabiam responder. Desde então, a desconfiança cresceu 31 pontos percentuais. Saltou 69% em uma década.

O que precipitou uma decadência tão repentina?

A hipótese mais óbvia para explicar esse descrédito generalizado da classe política nacional é a sucessão de escândalos que monopolizaram as manchetes e, mais recentemente, as mídias sociais. Começou com o mensalão, em 2005, e não parou mais. Cada nova operação da Polícia Federal, cada delação premiada, cada gravação vazada tirou um naco da confiança nos políticos.

Então a responsabilidade é da publicidade dada aos casos de corrupção? Também, mas apenas acessoriamente. Se não houvesse desonestidade não haveria o que noticiar – e se ela não fosse tão industrial e universalizada, a cobertura não teria tanta matéria prima. Na verdade, são tantos os casos de corrupção que nem todos recebem a atenção que merecem. A desonestidade é suprapartidária, pública e privada, local, estadual e federal.

Sempre foi. A novidade é que o público está introjetando essa percepção. A mudança se revela na evolução da resposta a outra pergunta do Ibope: “Comparando com povos de outros países, o povo brasileiro é mais honesto, igual ou menos honesto?”.

Em 2006, quando o mensalão parecia exótico, 45% diziam que o brasileiro era mais honesto que outros povos do mundo, e 34%, que era igual. Só 14% achavam que éramos menos honestos. Dez anos e centenas de mensalões depois, só 21% ainda acreditam na honestidade superior do brasileiro, enquanto recordes 42% respondem que somos menos honestos que o resto do planeta.

A percepção de desonestidade, portanto, deixou de ser só para os representantes, e passou a valer para os representados – mesmo que em menor dose. Autocrítica? Provavelmente não. Ainda se culpa o outro, só que esse outro não é mais apenas o político: são todos os diferentes. Pessoas de outra religião, com outro sotaque, com outro status social, com outras opiniões e valores.

Pesquisa feita pelo Ibope em 2010 confirma que as respostas sobre a honestidade comparada dos políticos e da população com a de outros países foram se tornando mais críticas com o tempo, mas que a incredulidade acelerou nos últimos seis anos. Foram tempos de Lava Jato, e também de Facebook, Twitter, WhatsApp.

Na era do algoritmo, cidadãos viram consumidores de conteúdos personalizados. Tais conteúdos sob medida atendem seus gostos, reafirmam seus pontos de vista e reforçam seus preconceitos. Não há contraditório, não há dúvidas. Qual o futuro de uma democracia em que cada indivíduo só compartilha suas certezas?