Brasil vai mal em índice da ONU que mede “riqueza natural”

Brasil vai mal em índice da ONU que mede “riqueza natural”

Jose Roberto de Toledo

28 de março de 2012 | 19h51

O Brasil aparece mal em um novo “indicador de riqueza inclusiva” que será apresentado oficialmente na Conferência Rio+20, em junho, no Rio de Janeiro. O motivo: o país estaria consumindo sua “riqueza natural” praticamente no mesmo ritmo que aumenta sua riqueza humana e econômica. A conclusão implícita é que o crescimento do PIB brasileiro nas últimas duas décadas se deu à custa da diminuição de seu estoque de florestas, reservas minerais e de combustíveis fósseis.

Entre 1990 e 2008, período a que se refere o novo indicador, o PIB do Brasil cresceu 34%. Ao mesmo tempo, a soma das riquezas naturais brasileiras teria decaído 46%, segundo os autores do estudo, cuja prévia foi apresentada nesta quarta-feira, em Londres, durante a conferência “Planet Under Pressure” (planeta sob pressão). Como resultado, a evolução da “riqueza inclusiva” brasileira foi pífia: apenas 3% em 18 anos.

Uma visão detalhada da evolução dos indicadores que compõem o novo índice pode ser vista no gráfico abaixo. Todos os ganhos de “capital humano” são praticamente anulados pela perda de “capital natural”. O período compreende os governos Collor, Itamar, FHC e Lula.

O novo indicador foi criado pelo “International Human Dimensions Programme on Global Environment Change” (UNU-IHDP), ligado à Universidade das Nações Unidas. Seu diretor-executivo, Anantha Duraiappah, pretende apresentar o primeiro relatório mundial de “riqueza inclusiva” durante a Rio+20, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Nessa primeira versão, o relatório deverá analisar o crescimento de 20 países sob a ótica do novo indicador: Austrália, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Equador, França, Alemanha, Índia, Japão, Quênia, Nigéria, Noruega, Rússia, Arábia Saudita, EUA, Reino Unido e Venezuela. Juntos, eles produzem 72% do PIB mundial e abrigam 56% da sua população.

Embora ainda não se conheça em detalhes a metodologia do novo indicador nem o seu resultado para todos esses países, não é difícil imaginar que as nações em desenvolvimento apresentem um resultado pior do que as desenvolvidas. Por uma razão simples: elas ainda têm capital natural para gastar, enquanto os países ricos já consumiram suas florestas e boa parte de seus recursos naturais enquanto estavam se desenvolvendo.

A Índia também aparece mal no novo indicador, embora melhor do que o Brasil: seu PIB cresceu 120% no período analisado, enquanto seu capital natural diminuiu 31%. Na média, a “riqueza inclusiva” indiana teria crescido 9% entre 1990 e 2008.

“A pesquisa sobre o Brasil e a Índia ilustra a razão pela qual o Produto Interno Bruto (PIB) é inadequado e enganador enquanto indicador de progresso econômico em uma perspectiva de longo prazo”, diz Anantha Duraiappah, do UNU-IHDP. E acrescenta: “Um país pode exaurir completamente todos os seus recursos naturais ao mesmo tempo que seu PIB cresce.”

A “riqueza inclusiva” não é o primeiro indicador apresentado por um braço da ONU para substituir o PIB como parâmetro de desenvolvimento. Há mais de 20 anos o PNUD lança, anualmente, seu relatório de desenvolvimento humano, no qual as nações são classificadas segundo um índice composto, o IDH, que soma indicadores de educação e longevidade ao PIB.

Resta saber se o “indicador de riqueza inclusiva” vai ganhar destaque e relevância ou se vai ser apenas mais um índice na selva estatística que cresce a cada ano. Também será curioso observar a reação do governo brasileiro ao lançamento oficial do novo índice durante a Rio+20. O anfitrião vai virar vidraça.

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