Boate, tomate e ferrugem

Jose Roberto de Toledo

27 de maio de 2013 | 14h40

Nem boato, nem tomate. O que desgasta a popularidade de Dilma Rousseff é a perda de otimismo do consumidor. Sem vender esperança de que melhores ventos virão, nenhum capitão consegue manejar o leme à vontade por muito tempo. É a confiança de que o barco está no rumo certo que evita o motim da tripulação.

Boatos fabricados e tomates exorbitantes passam. Já a lenta mas constante perda de poder de compra da base eleitoral tem efeito corrosivo na imagem de qualquer governante. As ondas chacoalham, mas é a ferrugem que afunda o navio no longo prazo. Marola quase imperceptível no oceano de notícias sobre o boato, a nova queda da confiança do consumidor registrada na sexta é ferrugem.

Antes, porém, uma espiada na comoção coletiva e efeito manada.

O descomunal interesse sobre o Bolsa Família provocado pelo boato de que o programa iria acabar ficou documentado na página de tendências do Google – o Google Trends. O volume de buscas pela expressão “bolsa familia” (assim mesmo, sem acento) foi recorde no domingo 19 de maio: 10 vezes maior do que de hábito. Mas durou pouco. Em três dias a preocupação voltou ao normal.

O vagalhão produzido por mensagens fraudulentas enviadas a celulares de beneficiários do Bolsa Família – por empresa de telemarketing carioca, segundo a Polícia Federal – dissipou-se tão rapidamente quanto chegou. Arrastou multidões aos caixas eletrônicos, mas deixou para trás apenas a desconfiança – menos sobre a continuidade do programa do que sobre a origem do boato.

No fim, a armação pode ter o efeito contrário ao previsto, porque o boato não encontrou respaldo na realidade. É diferente da busca coletiva pelo tomate perdido de quarenta dias antes.

Preços impagáveis elevaram o tomate à categoria de fenômeno digital em 5 de abril. As buscas por “tomate” no Google chegaram ao pico no dia seguinte, um sábado, e persistiram por mais uma semana. Embora o auge não tenha sido tão intenso quanto no boato do Bolsa Família, o efeito mais prolongado acabou gerando, no acumulado, mais buscas – um indicativo de maior interesse.

A diferença é que ao chegar à feira as pessoas encontravam o preço do tomate exorbitantemente alto. Embora isso não fosse símbolo de inflação – era apenas escassez -, dava respaldo ao que se lia na internet e na imprensa. Não era boato. Mas o interesse acabou dissipando-se quando o preço voltou ao normal.

Boato e tomate foram factóides de pouca consequência. Talvez tenham sido uma prévia do que o governo verá quando a campanha eleitoral começar para valer. Mas não tiveram força para mudar o destino de Dilma na Presidência. A queda da confiança do consumidor, porém, não é boato nem efeito manada. É tendência.

O ICC da Fundação Getúlio Vargas vem em queda desde abril do ano passado, se olhado pela média trimestral. Os últimos três índices ficaram abaixo da referência histórica. O que está arrastando a confiança do consumidor para baixo é a perda do otimismo. Ele olha para frente e já não vê tudo azul como via há alguns meses. Têm dúvidas sobre o futuro.

O fenômeno é mais agudo em São Paulo, mas a tendência se repete, ainda que com menor intensidade, em outras regiões do país – como mostra outro índice que mede a mesma coisa, o INEC da CNI.

A ferrugem não se limita à expectativa do consumidor. As medições sobre o mercado de trabalho feitas pelo IBGE e pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados mostram que o desemprego segue excepcionalmente baixo, mas a oferta de vagas desacelera. E a renda dos trabalhadores está começando a cair. Some-se inflação e o resultado é perda de poder de compra.

Até o PT já percebeu que mais do mesmo não levará Dilma ao segundo mandato. A presidente vai precisar restaurar o otimismo do brasileiro se quiser arear sua popularidade.

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