Após morte de Campos, terceira via é incógnita

Jose Roberto de Toledo

13 de agosto de 2014 | 17h26

As implicações da morte trágica de Eduardo Campos vão muito além da sucessão presidencial de 2014. Antes de ser candidato a presidente, ele era o condutor do mais sólido projeto de poder alternativo à polarização tucano-petista que domina o cenário político brasileiro há 20 anos. Sua morte abre uma dúvida que não será respondida de pronto: a viabilização de uma terceira via vai regredir ou acelerar?

No curto prazo, a resposta depende da reação de Marina Silva. Se a vice assumir a chapa presidencial e tiver sucesso em galvanizar a comoção provocada pela tragédia, ela poderá aspirar a suceder Eduardo não apenas na campanha eleitoral, mas no projeto político que ele capitaneava. Mas isso não depende só de Marina. Unir o PSB e seus aliados em torno da ex-petista não é uma tarefa trivial, especialmente para ela.

Marina é uma candidata com potencial carismático junto à opinião pública, mas não é uma articuladora como Eduardo. Ainda está tateando seu caminho como política. Deu tantos encontrões que nem sequer conseguiu formar o próprio partido. Ela é complementar a Eduardo, não sua substituta.

Desde que retomara o comando do PSB junto com o avô Miguel Arraes, há uma década, Eduardo Campos tinha conseguido transformá-lo no único partido com crescimento contínuo em todas as eleições a partir de 2004, junto com o PT. Era um esforço de maratonista, que ainda estava a meio caminho.

Sem Campos, é uma incógnita o que acontecerá com essa maratona. Sob o impacto da notícia, o amigo e deputado Julio Delgado (PSB-MG) disse à Globo News que Eduardo é insubstituível “porque era o que nos unia, era a nossa bússola”. A declaração vai muito além do protocolar. Expõe uma sinceridade rara entre políticos. O PSB vive um dilema.

A Rede de Marina é um objeto estranho que foi implantado no PSB. Não há liderança na ala histórica do PSB que se equipare a Marina em popularidade, e por isso é natural que ela assuma a frente do projeto de poder do partido, se tiver garra para isso. Mas lhe fará falta a habilidade de Eduardo para amarrar todas as pontas e pacificar as diferenças entre PSB e Rede.

Sem Eduardo, o poder gravitacional do governo federal vai agir sobre o PSB e seus aliados. Defecções poderão acontecer. As próximas semanas serão únicas na história política brasileira.