Anomalias normais

Jose Roberto de Toledo

16 de janeiro de 2017 | 00h10

Din-don!
– Ó, Jarbas! Veja aí quem é.
– É a Polícia Federal, doutor.
– De novo?!

Para ex-ministros, visitas policiais viraram rotina matinal. Mas os poderosos estão longe de ser os únicos perturbados pelos efeitos da criminalidade que foram incorporados ao cotidiano.

“Pai, pai! Fui roubado, pai! Me ajuda!”. É um golpe baseado na estatística. O telefonema inesperado, numa manhãzinha de sábado, desperta com um salto quem têm filho da mesma idade e sexo do detento do outro lado do fone. Temendo o pior, os mais suscetíveis acabam se convencendo que devem seguir a orientação da voz apavorada, mesmo se a ligação vier “sem ID do chamador”. Como no telemarketing, a taxa de sucesso pode chegar a 3%.

Para 97% ou mais dos que receberam esse mesmo telefonema terá sido no máximo um susto. Para os sem descendentes, uma curiosidade a contar para os amigos ou comentar no Facebook. Mas para 100% dos chamadores é mais um dia de trabalho, supervisionado pelo gerente de alguma facção criminosa.

Os telefonemas mal sucedidos consomem de 15 a 25 segundos. Dá três por minuto, 180 por hora, mais de mil por dia. Se a taxa de sucesso for de 1%, dez vítimas terão contribuído para a remuneração do negócio ao final da jornada. Multiplique-se pelo número de presos com celular a serviço do PCC, CV e outras siglas que comandam os presídios brasileiros. Daí ter se tornado mais uma anomalia normalizada no Brasil. Não é a única.

Uma versão modernizada do golpe é aplicada aos amigos e conhecidos de quem tem um smartphone roubado. O ladrão dá preferência aos que já estão ligados – na mão dos donos, ou nos painéis de seus carros com o Waze a indicar-lhes o caminho. É que assim o celular já vem desbloqueado: basta vasculhar nas trocas de mensagens pelo WhatsApp para achar as vítimas.

Passando-se pelo dono do aparelho, o ladrão digita: “Amor, esqueci a senha do banco. Vc lembra?” Ou então: “Amiga, preciso fazer um pagamento e estou sem saldo. Vc pode me fazer uma transferência?” A taxa de sucesso é ainda mais alta porque a vítima tende a acreditar que quem está lhe fazendo o pedido é mesmo quem diz ser. A memória das conversações serve de subsídio para o golpista aumentar sua credibilidade. É normal cair.

Outra cena está virando clichê na capa de jornais, na TV e na internet. Dezenas de mulheres – pesos diversos, idades indefinidas, quase sempre da cor que o IBGE convencionou chamar “parda” – se aglomeram na porta de um presídio por horas, dias a fio, sob sol e chuva, com um único objetivo: saber se o parente preso lá dentro está vivo. Raras vezes obtêm uma resposta.

Do presidente ao carcereiro, do governador ao policial, nenhum representante do estado é capaz de dizer-lhes com absoluta certeza quantos presos havia, quantos permanecem, quantos fugiram, quantos estão vivos, quantos morreram. A cada dia descobrem-se mais corpos, dão por falta de mais fugitivos. A ignorância é ainda maior nos presídios privatizados.

A presidente do Conselho Nacional de Justiça quer um censo para contar os presos, saber quem, dos que ali estão, foi condenado e quem não foi. Ou é isso, ou é propor uma joint-venture às facções que comandam os presídios: pedir que dividam com a Justiça parte da sua contabilidade. Não precisam revelar dados financeiros, apenas o nome dos seus contribuintes encarcerados.

A grande vantagem em relação a um censo é que os dados seriam atualizados permanentemente. Entradas e saídas, mortos, vivos, tudo certinho. O custo depende de negociação. Quem sabe algum governante recentemente levado para o outro lado das grades pudesse fazer a intermediação – mediante comissão, é claro.

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