Analfabetismo resiste a ganhos de renda dos mais pobres

Jose Roberto de Toledo

11 de julho de 2011 | 16h09

O aumento a renda média dos municípios mais pobres acima dos mais ricos não se traduziu em avanços proporcionais na educação dos moradores dessas cidades. Os habitantes de Salgadinho, no agreste pernambucano, viram sua renda crescer 69% acima da inflação na década passada, mas o analfabetismo entre eles só diminuiu 6% no mesmo período: 4 em cada 10 continuam sem sabem ler nem escrever.

O Censo 2010 mostrou que a região Nordeste foi onde a renda média municipal mais cresceu desde 2000. Mas a mesma pesquisa indica que os municípios nordestinos ainda concentram as maiores taxas de analfabetismo do País. Pior, foi lá que a alfabetização das pessoas de 15 anos ou mais de idade cresceu mais lentamente na década passada.

Os mapas mostram que na maior parte do Nordeste ainda predominam taxas de analfabetismo superiores a 20% da população que já passou da idade escolar obrigatória. A mancha se espalha por todos os Estados da região e transborda para o norte de Minas Gerais e para o oeste do Pará e do Tocantins.

Enquanto na maior parte do Sul e do Sudeste, as regiões mais ricas do Brasil, a redução da taxa de analfabetismo de adultos foi superior a 30%, no Nordeste, onde o problema é mais grave, o avanço da alfabetização ficou abaixo desse patamar na maioria das cidades.

Por causa disso, a redução em um terço da desigualdade regional que aconteceu na renda não se repetiu no analfabetismo. Ao contrário. Em 2000, a proporção de analfabetos com 15 anos ou mais em Alagoas era 6 vezes maior do que no Distrito Federal. Em 2010 essa relação havia crescido para 7 vezes.

Há uma forte correlação negativa entre analfabetismo e renda: quanto menor o rendimento médio do município, maior a sua taxa de analfabetismo, e vice-versa. Mas não há relação direta de causa e efeito. Os dados de Censo 2010 mostram que não basta transferir dinheiro para as famílias mais pobres para reduzir o analfabetismo.

Programas como o Bolsa Família conseguiram promover a redução da taxa de analfabetismo da população em idade escolar (de 10 a 14 anos), porque as famílias com filhos nessa faixa etária têm que comprovar que as crianças estão frequentando a escola para receber o dinheiro. Nesse segmento, a queda do analfabetismo foi mais dramática no Nordeste do que em qualquer outra parte do País.

Mesmo assim, todos os Estados nordestinos continuam com taxas de analfabetismo de 10 a 14 anos superiores à média nacional, de 3,9%. O melhor no Nordeste é o Ceará, que reduziu a taxa de 14,2% para 5,4% em 10 anos. E o pior é Alagoas, que foi de 22,8% para 10,7%. O problema também é grave no Pará, no Amazonas e no Acre.

Taxas tão altas nessa faixa etária denunciam não apenas o precário estado do sistema de ensino local, como alimentam a perpetuação da taxa de analfabetismo de adultos. Crianças que ainda não aprenderam a ler e escrever após três ou quatro anos na escola tendem a abandoná-la e não se alfabetizarem mais. É uma fábrica de analfabetos.

O efeito da transferência de renda é nulo sobre a melhoria educacional da população acima de 15 anos, que não tem obrigação legal de ir à escola. Para diminuir as desigualdades regionais em educação e cortar drasticamente o analfabetismo é necessário um programa de alfabetização de adultos com alcance amplo nos Estados onde o problema é mais agudo, como Alagoas, Maranhão, Piauí e Paraíba. Mas não só lá.

Alagoinha do Piauí, perto da fronteira com o Ceará, tem a maior taxa de analfabetismo do Brasil: 44,4% da população de 15 anos ou mais. Em quantidade, porém, não são tantos assim os que não sabem ler e escrever: 2,5 mil.

Quando se trata de pessoas, os números absolutos são tão importantes quanto os porcentuais. E não há mais analfabetos em qualquer cidade do País do que no município de São Paulo: 279 mil. É um contingente maior do que o de 12 Estados brasileiros, como Sergipe, Amazonas, Espírito Santo, Mato Grosso e Santa Catarina.

Tudo o que sabemos sobre:

Censo 2010demografiaeducaçãogovernorenda

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.