A volta dos que nunca foram

Jose Roberto de Toledo

05 de outubro de 2014 | 07h39

Centenas de protestos em dezenas de cidades. Semanas de manifestações. Sete em cada dez eleitores querendo mudança. Se não prenunciavam uma revolução, os fatos antecedentes destas eleições prometiam renovação. Mas a agitação de 2013 ricocheteou como bala de borracha e se dispersou feito gás lacrimogêneo. Sumiram as multidões, sobraram os mesmos políticos de sempre.

O cenário mais provável para a eleição presidencial, na proporção de 9 para 1, é de um segundo turno entre PT e PSDB. É a mesma polarização que domina a política brasileira há 20 anos.

Projeção do Ibope aponta o PMDB como favorito para eleger hoje a maior bancada da Câmara dos Deputados. Entre os muitos nomes repetidos que aparecem nas pesquisas do instituto, destaca-se o do atual líder do partido, Eduardo Cunha. Se for bem votado, como parece que será, e o PMDB ultrapassar o PT em cadeiras, esse mestre sem cerimônia do toma lá dá cá será forte candidato à presidência da Câmara, o cargo mais poderoso do Parlamento.

Cunha é o símbolo de que podemos não saber quem será o presidente, mas sabemos que o PMDB estará no poder. Controlando as maiores bancadas na Câmara e no Senado, os peemedebistas terão posição ainda mais forte para barganhar cargos, verbas e sabe-se mais o quê com quem vier a ser eleito para o Palácio do Planalto.

Tanto melhor quanto menor for a bancada do partido do novo presidente. Se Dilma Rousseff for reeleita, muito provavelmente terá a seu lado um PT menor do que os quase 90 deputados de hoje. Se for Aécio Neves, terá um PSDB com menos de 50 cadeiras. Se for Marina Silva, o PSB onde está hospedada mal chegará a 30.

Para complicar, a dispersão partidária tende a aumentar na Câmara. Segundo a projeção do Ibope, haverá mais partidos médios, os nanicos virarão pequenos, e os sem-bancada virarão nanicos. É o habitat perfeito para o cultivo fisiológico.

Nas disputas pelo poder nos Estados, 11 governadores ou seus candidatos chegam favoritos à boca da urna. No mínimo, ocupam o primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. É assim em todo o Sul: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Mas se repete em todas as regiões. De São Paulo e Rio de Janeiro no Sudeste, a Acre, Rondônia e Roraima no Norte, passando por Pernambuco e Sergipe no Nordeste, e Goiás no Centro-Oeste.

Em outros lugares a disputa está mais apertada, mas o candidato governista está num segundo lugar e ameaça o favorito, como no Ceará, Bahia, Pará e na Paraíba.

Há Estados onde parece que haverá renovação, como no Amazonas, Espírito Santo, Piauí, Amapá e Tocantins, mas só parece. Os favoritos são ex-governadores tentando voltar ao poder. Nos dois primeiros casos, por briga interna: elegeram o sucessor, se desentenderam e agora tentam retomar o que era seu.

Outra miragem de mudança acontece em Alagoas e no Rio Grande do Norte. Mal avaliados, os governadores devem ser substituídos por políticos 2.0 – de segunda geração, como Renan Filho (herdeiro político do presidente do Senado, Renan Calheiros) e Henrique Eduardo Alves (11 vezes deputado federal, filho do ex-ministro e ex-deputado Aluísio Alves, primo e sobrinho de senadores).

Mudança, se houver, só no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Maranhão e Distrito Federal. Mesmo assim, os favoritos são senadores, ex-ministros e ex-deputados.

Por que a onda de 2013 vai morrer na praia? Entre outros motivos, porque as redes e organizações ditas horizontais que chamaram os protestos do ano passado não produzem lideranças. A democracia representativa depende de líderes, o poder não admite vácuo. Os manifestantes não se organizaram para preenchê-lo, mas os profissionais sim. É a volta dos que nunca foram embora.

Por essa contradição mal-resolvida, pela aridez econômica e climática, 2015 deve ser ano de mais nuvens lacrimogêneas. Melhor estocar água e vinagre.

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