À margem do Rubicão

À margem do Rubicão

Jose Roberto de Toledo

12 Dezembro 2016 | 00h10

A popularidade de Michel Temer ainda não afundou tanto quanto a de Dilma Rousseff, mas está em caminho paralelo ao da antecessora. A inclinação da curva de “ruim e péssimo” do atual presidente no Datafolha não é tão íngreme quanto a que levou a petista à ruína. Tem metade da intensidade. Mas o aumento do desemprego, a proposta de retardar a aposentadoria dos trabalhadores e as denúncias de corrupção ameaçam empurrar Temer para um patamar semelhante ao do pré-impeachment de Dilma.

Reeleita, a petista desabou nas pesquisas logo no começo do segundo mandato. A impopularidade de Dilma no Datafolha pulou de 24% em dezembro de 2014 para 44% em fevereiro de 2015. Chegou a 62% em março, variou em abril e acabou batendo seu recorde em agosto daquele ano: 71% de ruim/péssimo. Refluiu marginalmente nos meses seguintes e terminou com 63%, em abril de 2016.

O patamar negativo de 60% também foi ultrapassado por Fernando Collor em meados de 1992, pouco antes do seu impeachment.

Temer está a perigosos 9 pontos percentuais do limiar histórico dos impedidos. Segundo o Datafolha, o peemedebista saiu de 31% de ruim e péssimo em julho para 51% em dezembro. Na média, ele ganhou 0,14 ponto percentual de impopularidade por dia. Durante sua debacle, no primeiro semestre de 2014, a taxa de ruim e péssimo de Dilma crescia 0,30 ponto percentual diariamente.

A comparação não é perfeita porque há poucos pontos na curva de Temer. O Datafolha só fez duas pesquisas sobre a popularidade do atual presidente nos últimos seis meses, contra seis entre dezembro de 2014 e agosto de 2015, quando Dilma estava no cargo. Por isso será importante a pesquisa Ibope/CNI, esperada para esta semana: com mais pontos na curva, será possível medir com mais precisão a aceleração da impopularidade do atual governo.

Em setembro, o Ibope encontrou 39% de ruim e péssimo para Temer, a mesma taxa de impopularidade medida pelo instituto em junho. Se a nova rodada da Ibope/CNI, por hipótese, encontrar um número equivalente aos 51% do Datafolha, confirmará que o ritmo de crescimento do ruim/péssimo de Temer está em 0,14 ponto/dia.

Nessa toada, o atual governo cruzaria o Rubicão dos 60% de impopularidade em três meses. Olhando-se o padrão histórico, significa que o deadline de Temer e companhia é março de 2017. Obviamente, não é um prazo para sua queda, mas é uma marca da qual nenhum presidente brasileiro conseguiu se recuperar.

José Sarney terminou o mandato, mas ao custo de uma hiperinflação. Fernando Henrique Cardoso bateu em 56% após a desvalorização do real, em meados de 1999. Nunca mais foi popular, mas ao menos conseguiu reverter a tendência e terminou com 36% de ruim/péssimo (contra 26% de ótimo/bom). Lula chegou a 29% de avaliações negativas em dezembro de 2005, no auge da crise do mensalão. Itamar Franco não passou de 41%.

A própria pesquisa Datafolha revela outros dados preocupantes para Temer, porém. O primeiro é a data em que os pesquisadores foram a campo: entre quarta e quinta-feira da semana passada. Ou seja, antes dos jornais, revistas e telejornais divulgarem a delação de um dos 77 executivos da Odebrecht que disse ter mandado entregar milhões na casa de um amigo de Temer.

Mesmo antes de a notícia ser martelada nas mídias sociais, 58% dos brasileiros já qualificavam Temer como desonesto, e 65%, como falso. Além disso, três em cada quatro entrevistados afirmaram que o presidente é um defensor dos mais ricos.

A avalanche de más notícias para o governo nos próximos dias e semanas pode acelerar o ritmo de perda de popularidade do presidente e antecipar o cruzamento do Rubicão dos 60% de impopularidade. Alternativamente, algum milagre natalino poderia sustar ou mesmo inverter a tendência. Mas só mesmo um milagre.