A enrolação de Temer

Jose Roberto de Toledo

22 de maio de 2017 | 00h10

Quando um governo chafurda tão publicamente quanto o de Temer só lhe resta a renúncia ou ganhar tempo. O presidente tenta reagir embaraçando. Usou as muitas pontas soltas da versão do açougueiro-delator para enodar todas as denúncias. Quanto mais enroladas, mais difícil desatá-las. Busca criar um nó górdio, insuperável, no qual mexer implicaria o risco de um corte pela espada, de uma ruptura. É lenda para atemorizar empresário.

Na narrativa criada pelos spin doctors temerários, a escolha indireta do sucessor de Temer não teria aceitação popular, e a eleição direta seria disruptiva, pois só pode dar em Lula ou em um aventureiro anti-establishment. Em ambos os casos, o Brasil navegaria em círculos, as reformas seriam revertidas e a recuperação econômica seria adiada indefinidamente. Logo, melhor deixar o nó lá, amarrando o leme à frente. Com Temer junto.

Essa versão trata como certeza a hipótese de que, com Temer, a economia crescerá rapidamente. Falta demonstrá-la. Nem é preciso entrar no cipoal dos indicadores contraditórios, da confiança empresarial que cresce junto com os recordes de desemprego. Há uma questão anterior: conseguirá um governo em decomposição convencer o Congresso a votar e aprovar as reformas que faltam antes de ele apodrecer completamente? Haja formol. E dinheiro.

Se as denúncias dos Batistas e Odebrechts do Olimpo empresarial brasileiro demonstraram algo acima de qualquer dúvida é como o capital financeiro determina o capital político. O sistema legislativo se corrompeu de tal forma e com tal profundidade que qualquer votação importante só se realiza se alguém pagar. Pode ser um empresário, o governo, a população – ou os três. Mas, de graça, só pelo bem público, jamais. Não há lei grátis.

Antes de os comuns mortais descobrirem que Joesley não é um erro ortográfico, aprovar as reformas de Temer no Congresso já havia custado aos cofres públicos entre R$ 60 e R$ 160 bilhões, dependendo de quem faz e como faz o levantamento. Esse dinheiro foi gasto em isenções, perdões, inclusões e refinanciamentos para os lobbies dos grupos de pressão – aqueles que gritam mais alto, ou que sussurram as palavras certas às pessoas que mandam.

Quanto vai custar agora, depois de as gravações e malas de dinheiro inundarem o noticiário e as timelines? Mais importante: quem vai pagar a fatura? Se as reformas já eram impopulares antes do escândalo, tentar colocá-las em votação nessa conjuntura custará muito mais caro, pois o risco de se alinhar ao governo para aprová-las estará multiplicado muitas vezes.

Além do preço tem o prazo. Nem nos mais molhados sonhos dos líderes governistas se vislumbra uma retomada imediata das votações das reformas. Quanto mais demorarem, mais improváveis.

Tudo se complica ainda mais porque o governo perdeu a unidade no discurso. As forças que o apoiavam se dividiram. Do Congresso aos meios de comunicação, o rolo compressor não comprime mais. Ouve-se uma multiplicidade de narrativas onde antes só havia uma única versão. Essa cacofonia política dificulta que o governo retome a iniciativa e implemente uma agenda estabilizadora.

Nos próximos dias deve recrudescer o embate entre o “Fica Temer” e o “Fora Temer”. Mas essa briga não tem como demorar. No curtíssimo prazo, ganhar tempo era a única alternativa do presidente à renúncia. Mas a validade dessa tática vence logo. Se Temer não demonstrar já capacidade de reação e força no Congresso, quem ainda o apoia perceberá que sua permanência implicará uma batalha mais demorada e custosa do que sua saída.

Aí não haverá churrasco ou feijoada palaciana que não acabe em indigestão.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.