A CEO e a presidente

Jose Roberto de Toledo

07 de fevereiro de 2011 | 14h49

Guia ortodoxo dos mercados, o “Financial Times” descreve o início de Dilma Rousseff na Presidência como “seguro” e “encorajador”. Repórteres que cobrem o dia-a-dia palaciano acham-na “silenciosa”. Auxiliares a definem como “detalhista” e “exigente”.

São todas, obviamente, comparações com seu antecessor e patrono. Nessas descrições, Dilma faz um contraponto à imagem percebida de Luiz Inácio Lula da Silva pelo establishment financeiro, burocrático e midiático.

No estilo, é “sóbria” e “pontual”. Não improvisa. No discurso, é econômica, objetiva e fala de temas que Lula ignorava, como cortar gastos e sobre direitos humanos no Irã. Essa é a percepção sobre Dilma projetada em balanços de um mês de governo.

Tem tudo para virar o novo clichê presidencial.

Se Lula chegou a ser pintado como gastador, boquirroto e ignorante, a imagem em construção de Dilma parece mais a de uma CEO do que a de uma presidente (“presidenta” só se o governo flexionar também o gênero de gerentes e serventes).

A definição é de um operador anônimo dos mercados, citado pelo FT. Não deixa de ser curiosa a identificação do executivo financeiro com a nova presidente. É como se ela estivesse de um lado do balcão diferente do que onde Lula parecia estar.

Antes de assumir o figurino, Dilma deve lembrar que: 1) o mercado oscila e muda de ponta com mais rapidez do que o Corinthians sai da Libertadores; 2) Lula cultiva a imagem esnobada pela elite porque ela o aproxima da maioria do eleitorado.

A cada “gafe” presidencial apontada pela imprensa, o ex-presidente somava um pontinho na sua curva de popularidade. A manobra é ancestral, anterior à caspa falsa de Jânio Quadros. Mas o politicamente correto insiste em ignorar seus efeitos.

Dilma não é Jânio nem Lula. Não vai sacar um sanduíche de mortadela da bolsa nem disparar metáforas futebolísticas. Defronta-se com o desafio de projetar uma imagem popular sem ser populista. Ainda não conseguiu.

Na disputa do reajuste do salário mínimo, tem dado a impressão de preferir uma regra estável ao que poderia eventualmente render mais votos. Diferentemente do antecessor, corre o risco de deixar a bandeira popular (e populista) com a oposição.

Durante a tragédia na região serrana do Rio de Janeiro, Dilma foi precisa no timing e correta no discurso. Resta saber se causou empatia às vítimas e a quem estava assistindo.

Se tudo correr bem com a economia até 2014, ela poderá optar por apenas devolver o bastão ao antecessor na corrida pela Presidência, ou forjar uma liderança que a capacite a concorrer à reeleição com as próprias pernas.

Tudo passa pela imagem presidencial a ser construída por Dilma nesses quatro anos. O eleitor não elegeu o melhor CEO em 2010. Nem deve votar nele em 2014.

Tudo o que sabemos sobre:

DilmadiscursoLulapopularidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.