A campanha sem fim

Jose Roberto de Toledo

20 de fevereiro de 2017 | 00h10

Em sua mais recente declaração de guerra, Donald Trump voltou a metralhadora tuiteira contra jornais e jornalistas. Chamou-os de “inimigos do povo americano”. Reações indignadas à parte, já se fala abertamente do impeachment do presidente empossado faz um mês – na imprensa e, claro, nas mídias sociais. Ao mesmo tempo, o vice Mike Pence faz aparições cada vez mais “presidenciais”, em contraponto ao titular. Nada disso é novo para os brasileiros que acompanharam o ocaso de Dilma e a assunção de Temer.

Um dos principais colunistas do New York Times, Nicholas Kristof dedicou sua coluna dominical no mais influente jornal dos EUA a explicar “como podemos nos livrar de Trump”. Foi caçar na 25ª emenda à Constituição gringa uma via rápida para cassar seu presidente. Sugere que o próprio ministério declare seu comandante em chefe incapaz de exercer a Presidência.

A tal brecha jurídica não é lá muito larga. Em caso de objeção (esperada) de Trump, seu recurso passaria pelo Congresso, onde dois terços precisariam votar pelo impeachment, tanto na Câmara quanto no Senado. Ou seja, os republicanos, que são maioria em ambas as casas, precisariam estar a bordo da conspiração. Por ora, não lhes parece muito conveniente.

Multiplicam-se avaliações de que os republicanos estão aproveitando as crises do Executivo provocadas por Trump para aprovar sua agenda no Legislativo com um mínimo de oposição. O histrionismo de Trump seria uma distração oportuna. Por quanto tempo o oportunismo valerá a pena? Ninguém é capaz de dizer.

Quase ninguém. Também no fim-de-semana, Louise Mensch dava menos de seis meses para Trump. A ex-deputada britânica tuitava sobre suposto diagnóstico de demência frontotemporal (FTD, na sigla em inglês) que acometeria Trump e explicaria sua hiperoralidade, sua desinibição, a negligência dos problemas e o desrespeito aos limites estabelecidos. Além de não apresentar provas, os tuítes da inglesa esbarram no fato de que nada disso sugere uma mudança comportamental de Trump. Ele parece ter nascido assim.

Logo a tal FTD tuitada por Mensch virou piada nas redes ao ser confundida propositalmente com STD (doença sexualmente transmissível) – algo que soou mais factível para os irônico tuiteiros, diante das inúmeras investidas sexuais de Trump.

Em favor da ex-parlamentar britânica vale lembrar que ela esteve no centro das denúncias de envolvimento impróprio do staff de Trump com diplomatas, hackers e espiões russos – e que acabaram levando à renúncia do principal conselheiro de segurança do presidente, general Michael Flynn, o breve. Mensch, que mudou-se para os EUA após renunciar ao Parlamento Britânico, é executiva da News Corp, o conglomerado do magnata Rupert Murdoch.

Nenhuma dessas especulações valeria mais do que fofoca se não fosse o problema real da opinião pública. Pesquisa do Pew Research Center, um dos melhores institutos dos EUA, mostra que Trump é o recém-empossado presidente dos EUA mais impopular desde Ronald Reagan: só 39% de aprovação com um mês de governo.

Ao mesmo tempo, Trump é o mais popular novo presidente entre os eleitores do Partido Republicano: 84% de aprovação (mais do que Reagan e os Bush). Seu problema – e do país – é que apenas 8% dos eleitores democratas o aprovam. A polarização política virou um racha sem precedentes na opinião pública dos EUA – um fenômeno que as mídias sociais e os veículos de comunicação partidários ajudaram a acirrar com suas bolhas informativas.

Nesses tempos destemperados e opiniosos, o máximo a que um governante pode aspirar é ter o apoio incondicional de uma minoria (às vezes grande, às vezes pequena, mas minoria). Se perde seu engajamento, se arrisca a perder também o poder. A consequência é a espiral retórica radicalizada de Trump, que segue fazendo comícios como se estivesse em campanha. Está.

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