A corrupção banal

Jose Roberto de Toledo

06 de fevereiro de 2017 | 19h28

Não é que lembraram que acusação não é condenação? Nas palavras do sempre astuto Romero Jucá: “Citado na Lava Jato todos serão”. Assim, nomear ministro aquele assessor citado 34 vezes por delator para que ele tenha o privilégio de ser julgado pelo lento e ponderado STF não é mais obstrução da Justiça, mas “apenas formalização”. Normal, ora: são dezenas de corruptores confessos e centenas de potenciais corrompidos. Se essa é a regra, por que o espanto? Petistas perguntavam a mesma coisa.

Percebe-se que o governo Temer quer transformar as acusações dos empreiteiros contra a Turma do Pudim em fato banal. Algo tão corriqueiro que nem notícia merece ser. Tal discurso embute a premissa de que a corrupção é inexorável, assim como o caixa dois nas campanhas eleitorais. É como se esconder diamantes na Suíça fosse tão comum quanto político pintar o cabelo de acaju.

Mas o discurso está emplacando. De tão anunciada, a chamada delação do fim do mundo está virando notícia velha antes mesmo de ser publicada. Falou-se tanto dos 77 delatores da Odebrecht que eles já estão parecendo clichê, lugar comum, déjà vu. Exagero? Quem atentou mais de dois minutos à denúncia contra Aécio Neves, baseada em vazamento parcial de delação odebrechtiana? Qual denúncia? CQD.

Um argumento contra a banalização é que a indignação da opinião pública contra a impunidade não deixará o descaso prevalecer. Contra ele servem as prisões dos azarados que ficaram nas mãos de juízes de primeira instância. Ver o ex-todo-poderoso presidente da Câmara dos Deputados algemado, o ex-governador de camiseta verde Bangu ou o ex-bilionário de cabeça raspada aplaca o desejo de desforra contra a classe política.

Enquanto isso, em Brasília, a elite com foro privilegiado decide qual o melhor juiz para julgá-la no Supremo Tribunal Federal. Como se fosse normal e corriqueiro caber ao criminoso escolher o próprio júri. Vale a lei da vantagem, segue o jogo.

A justificativa prática para a desfaçatez é que alguém precisa fazer o serviço impopular das reformas previdenciária, trabalhista e todas aquelas que tiram votos em vez de dar. Como ninguém quer fazer campanha prometendo aumentar o tempo de contribuição para o trabalhador poder se aposentar, melhor deixar isso para um governo sem pretensões de se perpetuar no poder – como se seus integrantes não fossem poder há 30 anos.

Finalmente, há o argumento “melhor isso do que voltar o PT”. De todos, é o mais sincero. Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei.

Se Temer e comensais tiverem sucesso onde os petistas falharam e conseguirem emplacar o discurso da banalização da corrupção, vai se consolidar uma divisão dos políticos em duas castas: os comuns, sujeitos a tomar banho frio em Curitiba a mando de juízo de primeira instância, e os alforriados, beneficiados pelo acúmulo de processos no gabinete de um ministro do STF.

Como diria aquele policial federal, é uma questão de timing. Para uns, o tempo urge. Para outros, urge não ter pressa. Não convém manipular o teor de vereditos, melhor trabalhar o calendário. É o suficiente para moldar o jogo político e eleitoral. De um lado, dá-se prazo para aprovar reformas no Congresso. De outro, criam-se condições para limar candidaturas.

Enquanto é presidenciável, Lula obstrui candidatos do mesmo campo político – mesmo com rejeição recorde, tem mais intenção de voto do que qualquer companheiro. Quanto mais demorar para o petista ser declarado inelegível, menos tempo sobrará para cultivarem-se alternativas no petismo. Se, por fim, ele não puder disputar, aumentará o espaço para quem surfe a onda que elegeu Trump nos EUA. Salvo, claro, Lula ser absolvido por Moro.

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