Jobim e Dilma, o ego e a marca

Jose Roberto de Toledo

04 de agosto de 2011 | 20h46

Nem Lula entendeu as declarações de Nelson Jobim. “Tem coisas que a gente não compreende”, disse o ex-presidente ao saber das frases do ainda ministro publicadas na revista Piauí (“A ministra Ideli é bem fraquinha”, entre outras). Por que o então titular da Defesa disse o que, depois, desdisse?

Há quem veja na sequência de declarações polêmicas um plano. Primeiro foi a frase final na saudação aos 80 anos do ex-presidente FHC: “Hoje os idiotas perderam a modéstia”. Depois, a reafirmação de que votara em José Serra e não em Dilma Rousseff para presidente. Finalmente, as críticas às colegas Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann (“nem conhece Brasília”). Mas fatal mesmo foi demonstrar superioridade à chefe no convite a José Genoíno: “Presidenta, quem sabe se ele pode ou não ser útil sou eu.”

Alinhavadas assim, as frases parecem denotar a ação planejada de quem quer sair atirando. Não foram. É preciso entremeá-las com fatos que não tiveram o mesmo destaque: a entrevista com panos quentes no “Roda Viva” (TV Cultura), o desmentido de que tivesse criticado as ministras, a reunião com Dilma no palácio avisando que seu perfil seria publicado na revista Piauí. Jobim trabalhou para ficar, mas sua boca conspirou contra ele.

O que aconteceu, então? Uma sucessão de erros e mal-entendidos. A frase infeliz na homenagem a FHC era uma citação que misturava Nelson Rodrigues e Jose Luis Borges. Era pedante, visava jornalistas (“escrevem para o esquecimento”), mas deu espaço para ser entendida como crítica a seus colegas de governo.

A declaração de voto em Serra foi um arroubo de sinceridade, embora não fosse um segredo. Em outro momento, passaria batida. Na sequência da frase sobre os “idiotas”, pareceu provocação.

O perfil publicado na Piauí é outra história. Quando um repórter da revista (no caso, a experiente Consuelo Dieguez) vai “perfilar” alguém, acompanha o sujeito da reportagem durante semanas, horas por dia, arrancando fragmentos de informação aqui e acolá. As conversas entre jornalista e fonte são tão frequentes que é difícil estabelecer com clareza qual declaração é em “on” (para publicar citando a fonte), qual é “off the record” (sem identificar a fonte) e qual é de “background” (para não publicar, só para dar contexto aos fatos).

É um risco grande para quem tem um cargo a perder. Mas o apelo de ter seu perfil estampado na mesma seção onde já apareceram amigos que Jobim admira, como FHC e Serra, foi irresistível. O ego falou mais alto que o superego.

Do lado de Dilma, a demissão de Jobim corrobora a imagem de “corajosa” que ela está tentando fixar. Na campanha eleitoral, um dos problemas da então candidata era o “branco” que dava nos eleitores quando um pesquisador pedia que eles, espontaneamente, descrevessem Dilma. Não havia marca própria, apenas a herança de Lula.

A ideia de “coragem” combina com a luta vitoriosa de Dilma contra o câncer e sua sobrevivência às sevícias na cadeia. Pode virar sua marca. Fazer uma “faxina” no governo reforça isso. Enfrentar e demitir um ministro como Jobim também.

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