Análise: Temer se move no fio da navalha

Vera Magalhães

15 de novembro de 2016 | 18h11

Bem ao seu estilo tergiversativo, o presidente Michel Temer deu a maior entrevista desde que assumiu a Presidência ao programa “Roda Viva”. Exibida nesta segunda-feira, a entrevista permite concluir que Temer é um presidente que se move sobre um fio de navalha muito tênue: tem de fazer as reformas econômicas para tirar o país do “precipício”, como disse, mas para isso depende de um arranjo político-institucional que é frágil e sujeito a solavancos da Lava Jato.

Temer evitou se posicionar sobre os temas mais polêmicos envolvendo a operação que pode tragar figuras importantes de seu governo e do Congresso. Ao admitir que uma eventual prisão do ex-presidente Lula pode provocar instabilidade política e social no país, parece dar a senha para a tal “delimitação” do espaço das investigações defendida pelo onipresente Romero Jucá em grampo com o ex-diretor da Transpetro Sérgio Machado, um dos delatores da operação.

São muitos os momentos da entrevista em que Temer flerta com essa interpretação. Ao dizer que só por ser citado por “outrem” alguém não pode ter a morte civil e política decretada automaticamente — ao responder sobre o próprio Jucá, demitido do ministério mas ressurrecto como líder do governo — Temer trata de minimizar as delações que estão em curso, como a da Odebrecht, que deve atingir a todos indistintamente.

Mais adiante, Temer diz que prefere não opinar sobre a eventual anistia ao caixa 2 cometido anteriormente a uma estudada tipificação penal do crime. Mas opina: diz que tem ouvido de juristas que não seria passível de punição o caixa 2 cometido antes da aprovação de tal lei.

Na mesma linha, Temer evita confronto com o presidente do Senado, Renan Calheiros. Nega que as medidas em curso na Casa tenham por objetivo manietar a Lava Jato, e afirma que não considera possível que haja uma tentativa de paralisar as investigações.

O fato é que Temer não avança o sinal porque não pode: tem pouco tempo para aprovar as medidas de ajuste da economia e, para isso, depende desse Congresso em que tem uma maioria numérica robusta, porém dispersa em uma sopa de letrinhas partidária e cercada de Lava Jato por todos os lados.

Some-se a isso o fato de que tanto o comandante da Câmara quanto o do Senado estão mais voltados para pautas de interesse próprio — no caso de Rodrigo Maia, um tapetão que lhe permita se reeleger no ano que vem, e no de Renan, uma saída para a Lava Jato que se aproxima inexoravelmente dele — tem-se um presidente para lá de cerceado em sua possibilidade de conduzir a articulação política.

* Análise produzida originalmente pela manhã de 15/11 para o Broadcast Político.

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