Análise: Temer afaga Renan, mas Cármen Lúcia não

Vera Magalhães

25 Outubro 2016 | 16h42

Ficou muito evidente a diferença de postura da presidente do STF, Cármen Lúcia, e a do presidente Michel Temer diante do “arreganho” de Renan Calheiros para com o Judiciário.

Renan achou que poderia subir o tom e chamar de “juizeco” Vallisney Souza Oliveira, juiz federal que autorizou a operação da Polícia Federal que na última sexta-feira prendeu quatro policiais legislativos do Senado.

Sob a justificativa de defender a separação dos Poderes, Renan desrespeitou um representante de um deles, por achá-lo em patamar inferior pelo fato de ser de primeira instância — demonstrando desconhecer, aí sim, o princípio da independência entre os Poderes.

Coube à presidente do STF enquadrá-lo. Péssimo para Renan, que está pendurado em oito inquéritos e uma denúncia na Corte, e pretendia recorrer ao Supremo para sustar os efeitos da prisão dos policiais a ele subordinado — alguns dos quais, diga-se, já confessaram serviços nada republicanos sob o mando do senador alagoano.

Já Michel Temer, receoso dos efeitos da devassa nas operações secretas de polícia do Senado sobre a votação das medidas de interesse do governo, adotou uma postura acuada.

Deu razão a Renan na reclamação quanto à impossibilidade de um juiz de primeira instância ordenar ação no Senado, desautorizou a fala do ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, e chamou o presidente do Senado ao palácio para afagá-lo.

Dá, assim, munição à conhecida característica de Renan: criar dificuldades para o governo — qualquer governo — quando ele próprio está na mira de alguma operação.

A diferença agora é que Cármen Lúcia mostrou que não está disposta a condescender com esse tipo de postura típica de um político que vem há muito tempo se esquivando da Justiça e sobrevivendo no poder

* Análise originalmente publicada no Broadcast