Análise: Sucessão na PGR é pano de fundo de resolução ‘anti-Lava Jato’

Vera Magalhães

25 de abril de 2017 | 10h03

O pano de fundo para a tentativa de aprovar no Conselho Nacional do Ministério Público uma resolução restringindo a cessão de procuradores de uma unidade para outra é a disputa pelo cargo de procurador-geral da República, que acontece em setembro, mas cuja campanha já está a pleno vapor.
A subprocuradora-geral da República Raquel Dodge, autora do projeto de resolução, adotou uma pauta da “categoria” e, movida pelo corporativismo, acabou encampando uma pauta cujo objetivo inicial não era tolher investigações como a Lava Jato — mas que terá esse efeito, se aprovada.
Os embates entre os grupos de Rodrigo Janot e de outros concorrentes ao posto de comando do Ministério Público já se desenrolam há meses em instâncias como o CNMP. A diferença é que agora isso foi escancarado pelas consequências que a aprovação do projeto de resolução podem trazer para operações como Lava Jato, Zelotes, Acrônimo e Greenfileld.
Muitos dos integrantes do grupo de trabalho que atua no gabinete de Janot na Lava Jato e dos que integram a força-tarefa da operação em Curitiba são cedidos por outros estados. O “desfalque” de profissionais para as tarefas corriqueiras das procuradorias é uma pauta com viés “sindicalista”, mas capaz de angariar muitos votos na eleição que vai definir a lista tríplice para o cargo de procurador-geral.
Por isso a restrição à cessão de procuradores ganhou o endosso de outros concorrentes ao posto de Janot, como o também subprocurador Carlos Frederico Santos.
Paradoxalmente, a pauta, identificada como um dos riscos à Lava Jato, pode acabar angariando mais apoio na sociedade à recondução de Janot. Antes alvo de desconfiança por setores que o consideravam muito próximo ao PT, o atual PGR galgou posições ao apresentar a lista ecumênica de políticos que serão investigados a partir das delações da Odebrecht.
Propostas como esse desastrado projeto de resolução, um petardo na Lava Jato que parte justamente de seu interior, têm tudo para levar mais água para o moinho de Janot, ao menos fora da corporação.
*Análise originalmente produzida para a Broadcast

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