Análise: Prisão de Bendine acaba com blindagem a presidentes da Petrobras

Vera Magalhães

27 Julho 2017 | 08h50

São muitos os desdobramentos da prisão de Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil, na 42a. fase da Lava Jato. O primeiro deles é para a imagem da companhia justamente no momento em que ela procurava mostrar uma imagem de empresa saudável, como classificou Pedro Parente em entrevista: é a primeira vez que a operação chega a um presidente da companhia, e atinge justamente aquele designado já depois do escândalo revelado, e que assumiu com a missão de sanear a empresa.

Até aqui, os presidentes da estatal, mesmo aqueles que a comandaram durante o período em que todas as diretorias eram dominadas, de cima a baixo, pelo petrolão, escaparam das investigações, de forma até surpreendente. José Sérgio Gabrielli passou incólume à prisão de diretores, gerentes, empresários, operadores, foi figura ausente em delações, não teve contas descobertas no exterior, não é alvo de inquéritos. Nada.

Por diversas vezes questionei integrantes de vários escalões das investigações a respeito, e as respostas são sempre evasivas. Por quê?

A explicação mais recorrente, vinda de fontes do mercado e de advogados, é que existiria uma espécie de acordo tácito na força-tarefa de que atingir presidentes da Petrobras implicaria em admitir que a empresa praticou os crimes do petrolao, quando, pela narrativa adotada, inclusive com a presença da Petrobras como assistente de acusação, ela foi vítima da pilhagem.

Envolver o comando da empresa tem fortes implicações não só para sua imagem como para a negociação das ações e, principalmente, no campo do direito internacional. A prisão de Bendine pode desencadear novos processos ou reforçar aqueles já movidos em vários países por acionistas que foram lesados pela má gestão da companhia.

A prisão também enfraquece a narrativa do saneamento da Petrobras, uma vez que atinge o presidente designado para iniciá-la. Bendine assumiu quando Graça Foster se tornou inviável no cargo. Dilma Rousseff procurou nomes do mercado para a empreitada, mas encontrou dificuldades.

Optou pelo então presidente do BB, que era bastante associado ao PT, mas que, para aplacar essa imagem, levou consigo o diretor financeiro do banco, Ivan Monteiro, nome de excelente reputação e trânsito no mercado.

Sob Bendine, a Petrobras começou um plano de venda de ativos e pôs o pé no freio em investimentos para tentar reduzir o prejuízo do petrolão. Também assumiu em seu balanço esse rombo.

Sua prisão coloca em xeque as ações e pode abalar a imagem de saneamento que a atual direção, esta sim completamente dissociada dos escândalos da era petista, tentava imprimir.

*Análise originalmente publicada pelo Broadcast Político.