Análise: Fachin vira ‘mediador’ no conflito Janot x Temer

Vera Magalhães

31 Agosto 2017 | 08h08

O ministro Edson Fachin deu “uma no cravo, outra na ferradura” ao atuar como uma espécie de árbitro informal na contenda entre o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o presidente Michel Temer.

O relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal sofreu críticas de seus pares e dos políticos ao chancelar toda a ação da PGR na delação da JBS, inclusive a concessão de benefícios — que foram considerados excessivos até pelo conjunto da sociedade que normalmente apoia as iniciativas da Lava Jato.

Agora, depois de ter tido decisões suas no caso das delações submetidas ao escrutínio do plenário e a ver aberta uma clara divergência sobre a possibilidade de as colaborações serem questionadas no futuro, Fachin adotou a cautela e mandou de volta a Janot a delação do deleiro Lucio Bolonha Funaro para que seja retificada em alguns pontos.

Como a delação ainda está sob sigilo, não se sabe quais os questionamentos feitos por Fachin, mas o certo é que se homologasse a colaboração do doleiro — que levou meses para ser selada e esteve envolta em controvérsia, como a disputa velada entre ele e Eduardo Cunha para ver quem conseguiria ser beneficiado por um acordo — Fachin estaria suscitando novamente críticas por estar “fechado” com Janot.

Não é inédito nem inusual um ministro do Supremo pedir alterações em acordos de delação. O próprio Teori Zavascki, relator da Lava Jato antes de Fachin, costumava ter essa prática como regra. Mas é fato que, no caso JBS, a velocidade dos fatos e a afinação entre relator e procurador foi mais evidente.

Ainda que tenha buscado um distanciamento, Fachin segue dando suporte a Janot nas investidas da defesa de Temer contra ele — daí porque a avaliação de que ele deu uma no cravo e outra na ferradura.

O ministro negou o pedido de suspeição do procurador feito pela defesa do presidente, o que permitirá que Janot prossiga com uma ou duas novas denúncias que pretende apresentar contra Temer antes de deixar o cargo.

O que resta saber é se haverá tempo para isso. O pedido de correções na delação pode ser um óbice para a pretensão da PGR de usá-la para embasar as novas investidas sobre o Planalto. De novo, a bola estará com Fachin.

*Análise originalmente produzida para o Broadcast Político.