Análise: Doria terá de conjugar expectativa alta e realidade dura

Vera Magalhães

16 de janeiro de 2017 | 15h15

As primeiras semanas de João Doria à frente da Prefeitura de São Paulo foram marcadas por dois movimentos, opostos e não combinados.

Diante dos holofotes, Doria encarnou um prefeito faz-tudo e nonstop: de segunda a domingo, sempre nas primeiras horas, lá está ele varrendo ruas, pintando paredes, construindo calçadas, andando de bicicleta, comendo no bandejão, comandando reuniões…

Nos bastidores, sua equipe se inteirou da situação financeira e fiscal deixada por Fernando Haddad, e o retrato pouco combina com as metas ousadas anunciadas pelo prefeito na campanha, na transição e depois da posse.

Existe um enorme desvão entre o que o Orçamento deixado pelo petista prevê de receita para várias pastas e rubricas e não apenas a expectativa de despesas, mas mesmo o realizado no ano passado.

O caso mais gritante é justamente aquele que Doria mais contribuiu para agravar: o do subsídio às empresas de ônibus. Ao investir no populismo tarifário na campanha e prometer que o preço das tarifas não seria reajustado neste ano, Doria contratou para si uma despesa de cerca de R$ 400 milhões.

O que não podia adivinhar, e agora sabe, é que já faltavam cerca de R$ 800 milhões no Orçamento para cobrir essa conta. O secretário de Fazenda, Caio Megale, dizia a interlocutores no fim de semana que teria de “achar” R$ 1,2 bilhão só para essa despesa.

Se o caso dos ônibus é o mais grave, está longe de ser o único: o cobertor é menor que o corpo também na educação, na assistência social e na zeladoria, conforme levantamento já feito.

Assim, Doria vai apostar nas renegociações de contratos e alugueis para tentar economizar um pouco, no contingenciamento de recursos de pastas, por outro lado, e nas parcerias com a iniciativa privada para tentar obter mais receitas, seja na forma de venda de ativos da prefeitura ou de convênios que repassem ao empresariado alguns encargos públicos.

Por ora, a conta não fecha. Auxiliares do prefeito gostariam que ele fizesse como José Serra fez em 2005, quando enfileirou fornecedores na frente da prefeitura, cortou pagamentos e anunciou que Marta Suplicy deixara instaurado o caos financeiro em São Paulo.

Doria gosta de Haddad e tem dito que não promoverá uma caça às bruxas de sua gestão. Prefere estigmatizar o PT e o ex-presidente Lula, numa dobradinha com seu padrinho político e presidenciável Geraldo Alckmin.

O temor de seus aliados é que, passada a lua-de-mel da opinião pública e dos eleitores com o “João Trabalhador” — em suas versões gari, pintor, operário, ciclista e o que mais pintar nos próximos dias — ele comece a ser cobrado das promessas. Aí será tarde para atribuir eventuais fracassos a Haddad. Parecerá desculpa, algo para que o eleitor está cada vez mais vacinado.

*Texto originalmente produzido para o Broadcast

Tendências: