Tribunal Superior Congressional

Supremo em Pauta

11 de junho de 2017 | 15h28

A decisão do TSE que absolveu a chapa Dilma-Temer não teve nada de juridicamente excepcional. Como também teria sido juridicamente ordinário a absolvição de todos os réus do Mensalão. Mas, ainda assim, o julgamento é um marco, que precisa e deve ser relembrado por muito anos.

É possível apresentar a decisão de maneira perfeitamente normalizadora: absolveu-se a chapa porque não havia provas suficientes de que o dinheiro ilícito doado aos partidos políticos foram utilizados nas campanhas eleitorais. Além disso, poderia-se acrescentar que nas “provas suficientes” não foram consideradas as obtidas ilicitamente ou que se referissem a fatos que não foram especificamente descriminados no início do processo. Porém, a dinâmica do julgamento do caso mostra que essa narrativa é excessivamente simples ao ponto de estar equivocada.

Foto : Carlos Moura/SCO/STF (07/06/2017)

Para descrever corretamente o que ocorreu é preciso dar conta de certos fatos: um ministro que em 2015 aceitava todo tipo de prova para a condenação e em 2017 reivindica a parcimônia do Judiciário; de um dos ministros declarar guerra ao Ministério Público Federal por trazer ao tribunal um questionamento sobre a imparcialidade de um de seus membros; a desmoralização pontual das delações premiadas; as provocações, insinuações e embates destemperados entre ministros; e, acima de tudo, a impressão de que ninguém estaria disposto a julgar diferente em razão de qualquer fato, prova, argumento ou raciocínio apresentado durante o julgamento.

Esses elementos comprometem a legitimidade do discurso jurídico, que independe em grande parte do resultado, mas de decisões bem ordenadas e fundamentadas em boas razões. Isso significa que a despeito do que se decidiu, a população parece ter ficado com a impressão de que o ambiente do julgamento lembrava muito mais o Congresso Nacional do que o Judiciário. É justamente por isso que o julgamento será um marco:  do momento em que a reputação popular desses dois poderes ficou igualmente baixa. Mais um passo importante na crise de legitimidade das instituições brasileiras.

Rubens Glezer, Professor e Coordenador do Supremo em Pauta da FGV Direito SP

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