Julgamento do mensalão invadiu imaginário social

Supremo em Pauta

02 de junho de 2015 | 09h42

Por que o julgamento do mensalão chamou tanto a atenção da nação? Muitos dizem que esse fenômeno foi fruto de uma atenção exagerada da mídia, ou mesmo de um movimento político contra a subida e manutenção do PT na Presidência da República. Mesmo que se suponha que esses fatores são corretos, eles não são capazes de explicar, por si só, o grau de relevância que o julgamento assumiu no imaginário social e no dia a dia das pessoas. Como explicar máscaras de carnaval com rostos de ministros do STF ou conversas de boteco sobre o cabimento de embargos infringentes? O julgamento do mensalão foi importante para as pessoas porque comunicava – e comunica – aspectos cruciais do que vivenciamos e pensamos sobre política e nossa democracia.

Ao longo do julgamento era possível presenciar uma montanha russa que oscilava entre o otimismo e o pessimismo em relação aos rumos do país. Antes do julgamento imperava a noção de que tudo acabaria na mais clássica pizza. Durante as sessões de votação houve uma clara mudança na percepção pública, de que poderia ser o fim de uma era de impunidade aos poderosos da alta cúpula política e econômica do país. Porém, já com a fase de recursos, mudanças na composição do tribunal que geraram revisões importantes no julgamento e com a decretação e cumprimento das penas, sobrou um sentimento de ambiguidade: será que superamos a cultura da impunidade dos poderosos? Será que políticos de outros partidos seriam punidos igualmente? A prisão em regime semi-aberto é um resultado realmente importante?

Esse mesmo ciclo de expectativas exageradas e um final ambíguo aparecem em outras partes da cena política brasileira. As Manifestações de Junho e a apropriação do mecanismo de protestos pelos mais diversos conjuntos sociais, com os mais distintos interesses, realizadas nas mais diferentes formas também deixam hoje um espírito de incerteza sobre o que realizamos. Algo muito semelhante pode ser dito sobre a relação com o Legislativo e o seu inquietante período de extraordinária atividade e votação sobre a Reforma Política. O que dizer então da Operação Lava Jato, com prisões de diretores de grandes empreiteiras, ocorrendo em torno da polêmica figura do juiz Sérgio Moro.

Em meio a tudo isso, a população precisa se apropriar de detalhes sobre lavagem de dinheiro, financiamento de campanhas políticas, modelo proporcional e distrital de eleição e mais uma série de questões que afetam os rumos da nossa democracia. Precisamos ser capazes de discutir o que é o mais adequado para uma vida boa e uma sociedade plural e diversa, levando em conta a ação social e de todos os Poderes. Parece que a política (no seu melhor sentido) foi ressuscitada no cotidiano brasileiro e o julgamento do mensalão fez parte desse processo. Porém, para que essa política se mantenha viva, é preciso apreender com uma grande lição do mensalão: não é possível manter o tecido social se tomamos posições e discutimos à moda do que fizeram os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski. Política não é fla-flú e precisamos ser melhores do que isso se desejamos permanecer como uma sociedade democrática.

Rubens Glezer, Professor e Coordenador do Supremo em Pauta da FGV Direito SP.

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