Wyllys: “PT está acuado e Eduardo Cunha faz jogo eleitoral”
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Wyllys: “PT está acuado e Eduardo Cunha faz jogo eleitoral”

Ao comentar a questão das passagens para mulheres de parlamentares com dinheiro público, o deputado Jean Wyllys, do PSOL, diz que ganha força na Câmara uma tendência que tende a ser muito moralista em relação ao comportamento e pouco ética quanto ao uso do dinheiro público

Roldão Arruda

03 de março de 2015 | 11h38

Após a repercussão negativa em torno de sua decisão de pagar viagens de esposas de parlamentares com dinheiro público, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) anunciou que poderá voltar atrás. Na avaliação do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) esse é um bom exemplo de como a Câmara só irá mudar se houver pressão de fora para dentro.

Wyllys e seus companheiros de legenda foram dos primeiros a reagirem à decisão sobre as passagens. Segundo o deputado, a sociedade deu pouca atenção ao perfil de Cunha no processo eleitoral para a escolha do presidente da Câmara. Agora, passado um mês da eleição, começa a reagir ao seu estilo de comando, que Wyllys qualifica como “arrogante” e que é criticado por grupos de defesa dos direitos humanos, indígenas, mulheres, gays.

Ainda segundo o parlamentar, a atuação do atual presidente é facilitada pela conjuntura política, com o PT acuado pelas denúncias de corrupção. Na entrevista abaixo, o deputado fala de um tipo de parlamentar que se apresenta como moralista na área de comportamento e tenta impor restrições aos direitos dos homossexuais; mas, de outro lado, mostra-se “pouco ético no trato do dinheiro público”.

Wyllys também comenta a organização, pela Igreja Universal, de grupos de jovens que se apresentam como tropas militares e são chamados de gladiadores: “Não acho impossível que grupos como esses comecem a se armar.”

O senhor participou, dias atrás, de um ato contra o Eduardo Cunha, em São Paulo, organizado pela Comissão Extraordinária de Defesa dos Direitos Humanos. Como vê esse tipo de manifestação?

A sociedade está começando a acordar e a se dar conta do erro ocorrido nas eleições para a presidência da Câmara. A reação começa nos movimentos sociais. O Eduardo Cunha vem tomando iniciativas graves e preocupantes, como o desarquivamento do projeto que cria o Dia do Orgulho Heterossexual e a criação de uma comissão especial para a aprovação do Estatuto da Família (um dos objetivos do projeto é impossibilitar a adoção de crianças por casais formados por pessoas do mesmo sexo). Mais grave ainda é a maneira como ele vem tentando tomar conta da área de comunicação da Câmara. Isso nunca aconteceu na história do parlamento. Nenhum presidente colocou a estrutura de comunicação da Câmara sob o comando de uma corrente ideológica.

Qual é o clima na Câmara diante do que está acontecendo?

É o pior possível. O PT está acuado diante dos escândalos de corrupção. A esse respeito eu gostaria de observar que a exploração dos escândalos tem sido feita de maneira muito seletiva, de modo a fazer crer que a corrupção é responsabilidade exclusiva do PT. Qualquer pessoa minimamente inteligente sabe que não é isso.

Mas o PT tem participação.

O PT tem participação, mas não é todo o partido. Os esquemas de corrupção também não começaram com os petistas nem se restringem a eles.

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O fato de o PT estar acuado favorece Cunha?

Sim. O PT está acuado e o Eduardo Cunha faz o jogo eleitoral e avança nesse clima. Para se eleger, ele não concentrou a busca de votos na bancada do PMDB, porque sabia que isso não seria suficiente. Por pior que seja a bancada do PMDB, ela é bastante diversificada. As articulações de Cunha foram suprapartidárias. Essa foi a grande sacada. Hoje ele tem aliados em todos os partidos de direita, em todos os partidos de aluguel.

E as bancadas parlamentares?

Ele tem aliados nas principais bancadas temáticas da Câmara. Sua grande aliada é a bancada religiosa fundamentalista. Mas também conta com o apoio das bancadas ruralista e da bala, onde estão os deputados que representam a indústria armamentista e os que são eleitos com os votos de policiais.

Isso significa que ele tem base forte.

É isso que o tem levado a exercer uma chantagem permanente sobre o governo. Se o governo não dá o que ele quer – e o que ele quer são mais carros, passagens e outros benefícios, que permitem ampliar os seus tentáculos e o poder -, ele ameaça desestabilizar as votações que interessam ao governo. Essa gente é muito moralista no que diz respeito ao comportamento, mas pouco ética no trato do dinheiro público. Parasitam o erário público, enquanto atacam os direitos dos homossexuais, das mulheres.

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Acha que a pressão para mudanças virá de fora do parlamento?

A única maneira de por um freio na atuação desses grupos é uma pressão de fora. O que está acontecendo é de assustar. As únicas pessoas que estão se organizando nesse País são os falsos moralistas, a direita corrupta. É essa direita que se organiza em páginas na Internet, em páginas que tratam a questão da corrupção de maneira seletiva. Você não vê nada ali sobre os escândalos de corrupção que envolvem os trens em São Paulo. Essas pessoas não estão indignadas de fato contra a corrupção. O objetivo é varrer os governos populares.

Acha que o governo do PT é de esquerda?

O PT está longe de fazer um governo de esquerda. Mas é um governo que tem um mínimo de preocupação com os mais pobres e com a questão social. A ideia é varrer esses governos. Por isso transformam a questão da corrupção numa pauta única. As pessoas progressistas têm que começar a se colocar diante desse cenário. Elas têm que começar a perguntar por qual motivo as igrejas evangélicas não prestam conta do que arrecadam e ainda contam com imunidade tributária? Porque não se indignar também com o financiamento privado de campanhas? Por que não contestar o estilo arrogante do Eduardo Cunha? Está na hora de ser contestado.

Ele sinalizou que pode recuar na questão das passagens de parlamentares. Acha que isso é um exemplo da força da pressão externa?

Vamos aguardar para ver se ele faz isso mesmo. Nesse caso acho que houve uma combinação entre uma ação interna, destinada a dar a máxima visibilidade à decisão, e a pressão externa que veio a seguir. A maioria dos parlamentares não está interessada em mudar as coisas. Mas tem uma minoria que pode se contrapor.

E o seu partido, o PSOL?

O partido tem feito oposição e trabalhou para dar visibilidade à decisão sobre passagens. Mas não dá para achar que a questão está na conta de um deputado ou de um partido. A sociedade precisa olhar melhor o nível do nosso parlamento. Existem deputados que juram proteger a Constituição e depois tentam atropelar, da maneira descarada, os direitos que ela prevê.

Está se referindo à possibilidade de impedir a adoção por casais gays?

O maior guardião da Constituição, o Supremo Tribunal Federal, já reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo e todos os efeitos que decorrem disso, entre eles a adoção. O Congresso não pode contrariar a Constituição, que é sustentada pelo princípio da dignidade humana, da não discriminação negativa. Ninguém pode deixar de ter acesso a um direito por sua orientação sexual, gênero, raça. O Eduardo Cunha sabe que está contrariando a Constituição. Continua no entanto a defender medidas desse tipo como parte do seu jogo eleitoral.

Como vê o surgimento dos chamados ‘gladiadores’ que estão sendo organizados pela Igreja Universal?

Acho assustador. São todos homens, fortes e com visual, treinamento e disciplina militar. Não acho impossível que esses grupos comecem a se armar e, quando isso acontecer, a Igreja Universal lave as mãos. Já vimos em outros países esses grupos paramilitares que surgem associados a religiões. O Executivo e o Judiciário não podem continuar fazendo vista grossa para isso.

Acha que tem havido negligência?

O Judiciário tem sido inoperante em relação a essa questão. O Ministério da Justiça também. Se as pessoas negligenciarem, porque, num primeiro momento, esse chamado exército do senhor vai se voltar contra os homossexuais, o pior pode acontecer. Certamente não serão só os homossexuais os atingidos. Depois virão outras religiões e assim por diante.

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