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Vergonha é a tolerância com a desigualdade social, dizia Plínio

Ele viu a política como instrumento para construir uma sociedade mais justa (e não como forma de aumentar fortunas pessoais)

Roldão Arruda

14 de julho de 2014 | 13h21

Acompanhei a trajetória de Plínio de Arruda Sampaio, como repórter, durante mais de uma década. Ele foi um desses casos raros, raríssimos, de políticos que melhoram com a velhice.

Ao receber a notícia de sua morte, na terça-feira, 8, pouco antes da derrota do Brasil para a Alemanha, lembrei que ele sempre me chamava de primo. Assim que me avistava, dizia, animado: ‘Como vai, primo?’. Segundo suas explicações, a árvore genealógica dos Arruda tem poucos ramos, o que torna todos nós meio aparentados.

No caso específico dele, o parentesco parecia lisonjeiro. Não soava bem, no entanto, quando pensava em outros possíveis primos da política – como o ficha suja de Brasília.

Nunca o vi tão animado quanto na campanha presidencial de 2010. Estava afiadíssimo nos debates e entrevistas. Soube usar bem o sarcasmo e a ironia – duas pegadas bem características dele – e defendeu seus pontos de vista com radicalidade e entusiasmo admiráveis. Parecia duas vezes mais disposto do que quatro anos antes, quando o acompanhei na campanha para o governo do Estado.

É possível supor que essa repentina força de Plínio vinha do fato de saber que a campanha de 2010 era a última arrancada na sua vida? Sim. Mas prefiro a hipótese de que ela surgiu da aproximação com os jovens.

Ele sentiu-se um bem-aventurado ao ver que seu estilo despojado e suas propostas empolgavam jovens que começavam a se politizar e que estavam situados além dos limites da sempre engajada militância do PSOL – o seu partido.

Falou disso várias vezes. Foi essa percepção, além da falta de recursos do partido, que o levou, já octogenário, a aprimorar suas habilidades no uso de redes sociais. Dedicou grande parte do tempo de campanha a esse tipo de mídia.

Sua proximidade com os jovens manteve-se após as eleições. Nos protestos de junho do ano passado, esteve na rua logo no início, no momento mais quente, ao lado da rapaziada do Movimento do Passe Livre. Com o físico fragilizado e o ar desarvorado e profético que a velhice moldou em suas feições, disse aos repórteres que foram ouvi-lo: estava lá para ajudar a proteger os “meninos” da violência policial.

Outro momento em que encontrei Plínio muito entusiasmado aconteceu logo após a posse de Lula, em 2003. Ainda estava no PT. Havia suado a camisa na campanha do operário para a Presidência da República – assim como em todas as outras campanhas do partido – e acabara de ser escolhido para coordenar o grupo que prepararia o 2.º Plano Nacional de Reforma Agrária.

Essa era a praia dele. No governo do presidente João Goulart, foi o relator da comissão especial que fez uma proposta de reforma agrária para o País. Imagino, olhando para trás, a bomba que ele enfrentou. Afinal, num país onde a propriedade rural era extremamente concentrada, com baixo índice de produtividade, e onde seis entre cada dez cidadãos ainda viviam na roça, na maioria das vezes de maneira muito pobre, falar em redistribuição de terra era considerado uma provocação. Das mais graves.

Plínio pagou por isso. Quando veio o golpe de 1964 foi um dos primeiros cidadãos a ter seus direitos políticos cassados. E logo depois ele e sua família tiveram que deixar o País. (Leia mais sobre a vida dele no breve e preciso perfil que o repórter Gabriel Manzano escreveu para o Estadão.)

O entusiasmo com o PT no poder durou pouco. O plano de reforma agrária que ele entregou ao presidente não saiu do papel. Pela quantidade de vezes em que o ouvi fazer referências a esse episódio nos anos seguintes, acredito  que foi ali que ele rompeu de fato com o PT – partido que ajudou a fundar em 1980. A saída dele em 2005, após o escândalo do mensalão, apenas selou o desencanto.

Plínio não suportava a corrupção (e defendia a transparência total nos gastos públicos). Mas não achava que ela fosse o maior problema do País. O que deve nos envergonhar, sempre disse, é a ilimitada tolerância ao fato de o Brasil ser um dos campeões mundiais no trágico ranking da desigualdade social.

Para superar esse problema secular, defendia a realização de três reformas que considerava estruturais: a agrária, a urbana e a tributária. Criticava o governo do PT porque, em vez de encarar e levar adiante essas reformas, teria optado pelo combate à desigualdade por meio de gastos assistenciais do Estado. O Bolsa Família e outros programas semelhantes a ele, na avaliação de Plínio, são focalizados e atenuam situações gritantes de pobreza, mas não alteram as estruturas que continuam provocando desigualdades.

Plínio era católico. Praticante. Desses de ir à missa, confessar e comungar regularmente – e não apenas em batizado e casamento. Sua visão de justiça social era cristã, alicerçada na doutrina social da Igreja Católica, a partir da encíclica Rerum Novarum, de 1891. Mais tarde ele se aproximou da esquerda e da Teologia da Libertação, que aceita o marxismo como instrumento de análise da sociedade.

Sua fidelidade à doutrina católica criou-lhe alguns problemas. Enfrentava uma saia justa atrás da outra no meio em que circulava politicamente quando as conversas enveredavam para temas como aborto e união entre pessoas do mesmo sexo.

O curioso é que, ao envelhecer, em vez de se fechar, ele foi se tornando cada  vez mais aberto ao debate dessas e de outras questões que envolvem ética, moral, religião. Registrei isso numa reportagem que fiz sobre um dos debates durante a campanha presidencial.

Pode-se dizer que algumas propostas de Plínio estão ultrapassadas. Que era intransigente. Que ele não avaliava corretamente o brutal jogo de forças políticas que movem (ou sangram) o Brasil. O debate é do jogo democrático. O que não se pode fazer é negar-lhe reconhecimento como cidadão que soube ver a política como instrumento para construir uma sociedade mais justa (e não como forma de aumentar fortunas pessoais).

Envelheceu pendendo cada vez mais para a esquerda, ao contrário do que ocorre com a quase totalidade dos políticos. Foi essa tendência que o levou, em 1980, a afastar-se do MDB, de Fernando Henrique Cardoso e José Serra, seus companheiros no exílio e na luta pela redemocratização, para ajudar na fundação do PT. Foi essa também a causa do desentendimento com o PT.

Plínio, como já disse, não era meu primo de verdade. Uma pena. Considerando sua vida política, eu teria motivos de sobra para me orgulhar de ser parente dele.

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Lembrete: amigos, familiares, companheiros e admiradores de Plínio vão homenageá-lo com uma cerimônia religiosa no sábado, 19, às 12 horas, na Catedral da Sé, em São Paulo.

 

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