Vândalos atacam obra que lembra mortos e desaparecidos
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Vândalos atacam obra que lembra mortos e desaparecidos

Roldão Arruda

03 de novembro de 2013 | 21h22

Menos de 24 horas após um ato inter-religioso para homenagear mortos e desaparecidos nos anos da ditadura militar, o ossário geral do Cemitério do Araçá, em São Paulo, foi atacado por vândalos. Foram destruídos dois dos cinco monolitos (*) de mármore sobre os quais seriam projetadas imagens da exposição Penetrável Genet – Experiência Araçá.

A abertura da exposição, que também lembra os mortos e desaparecidos, estava marcada para a manhã deste domingo, 3. Poucas horas antes, porém, os funcionários do cemitério descobriram que parte dela havia sido destruída.

Os vândalos abriram três sacos plásticos contendo ossos e espalharam seu conteúdo pelo chão. Eles também danificaram algumas estátuas que ornamentam túmulos do cemitério, localizado na Avenida Doutor Arnaldo. Nenhuma delas fazia parte da exposição.

O ossário do Araçá abriga 1.049 ossadas encontradas em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, na Zona Norte de São Paulo. Existem indícios de que estão ali os despojos de mortos e desaparecidos políticos nos anos da ditadura e também de vítimas do Esquadrão da Morte. Nenhum dos sacos plásticos originários de Perus, porém, foi violado.

Até à noite do domingo, nenhuma pessoa ou organização reivindicou a autoria do ataque. Os funcionários do Araçá constataram que os dois cadeados da porta do ossário foram arrombados. Também observaram que os vândalos não se interessaram por dois projetores e um computador que estavam no local.

Para Maurice Politi, ex-preso político e integrante do Núcleo de Preservação da Memória Política, que faz parte da organização da exposição, o ataque “é um sacrilégio, uma ofensa aos mortos e um ato contra cultura”.

Ainda de acordo com Politi, a ação dos vândalos pode sinalizar também o quanto ainda é problemática para a sociedade brasileira a discussão sobre os efeitos da ditadura. “Atacar uma exposição na qual se cruza a concepção de Jean Genet sobre a morte com a questão dos mortos e desaparecidos mostra o quanto o tema ainda é um tabu em nossa sociedade”, afirma.

A Polícia Civil abriu inquérito para apurar responsabilidades. A Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania anunciou que vai acompanhar o trabalho de investigação.

A abertura da exposição Penetrável Genet – Experiência Araçá, foi adiada para a terça-feira, 5, às 12 horas. Os monolitos, sobre os quais serão projetadas imagens, compõem uma espécie de labirinto.

A obra, projetada e realizada pelos artistas Celso Sim e Anna Ferrari, faz parte da 10.ª Bienal de Arquitetura de São Paulo: Cidades, Modo de Fazer, Modos de Usar. É inspirada no texto Estranha Palavra, no qual o escritor francês Jean Genet defende a ocupação artística de cemitérios e crematórios. Também incorpora textos de Hélio Oiticica e Oto Souza-Mattos, sobre a morte e ressurreição.

No texto de apresentação da obra, Celso Sim fala de sua interligação com a questão dos mortos e desaparecidos na ditadura e também das vítimas atuais, como Amarildo, que foi morto por policiais. Diz ele: “Este projeto nasceu de um estado de invenção, anarco-clássico-romântico e libertino. Posteriormente, foi atravessado pela vala clandestina de Perus. A história do Brasil foi mais forte, atravessado uma vez não há mais volta. Os heróis e anti-heróis, anônimos Amarildos e nomeados desaparecidos se misturaram com a proposta inicial.”

Acompanhe o blog pelo Twitter – @Roarruda

(*) De acordo com os dicionários a palavra deve ser grafada com acento: monólito (pedra de grandes dimensões). O Aurélio admite, porém, a grafia monolito, sem acento, que é de maior uso.

 

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: