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Ustra desafia ex-preso político e ironiza Comissão da Anistia

Roldão Arruda

05 de setembro de 2012 | 17h28

O site A Verdade Sufocada divulgou uma carta aberta atribuída ao coronel da reserva Carlos Alberto Ustra, na qual desafia um ex-preso político a provar as torturas que diz ter sofrido no DOI-Codi de São Paulo. Em tom irônico, desafiador e às vezes sarcástico, a carta também investe contra a Comissão da Anistia, criada para promover reparações de violações de direitos humanos ocorridas no período do regime militar.

Ustra, hoje com 80 anos, chefiou o DOI-Codi do 2.º Exército no período de 1970 a 1974 e é apontado por organizações de direitos humanos como um dos mais notórios torturadores do regime militar. A carta aberta é endereçada especificamente ao médico e vereador paulistano Gilberto Natalini (PV), por causa de declarações feitas ao jornal Folha de S. Paulo. Ele disse que foi torturado por Ustra quando esteve preso.

Natalini, que militou na organização de esquerda Molipo e hoje integra a Comissão da Verdade da Câmara Municipal, afirmou: “Ele me batia com uma vara de cipó… Me bateu durante várias horas e me obrigou a declamar poesias nu e diante dos soldados para me humilhar.”

Na carta aberta, o Major Tibiriçá, codinome de Ustra nos porões da repressão, pede ao vereador que cite, uma a uma, as datas de prisão, período de detenção, julgamento na Justiça Militar, condenação, entre outras. “Para dar maior credibilidade às suas declarações”, desafia.

Ele põe em dúvida as declarações de Natalini e de centenas de outros ex-presos políticos que passaram pelo DOI-Codi, como se existisse uma espécie de complô: “Certamente, como é comum entre os que me acusam, o senhor já terá as testemunhas que o viram ser torturado por mim e que também se dirão torturadas.”

O militar da reserva ainda ironiza as medidas tomadas pelos governos democráticos em relação às vítimas de prisões arbitrárias e torturas, entre elas as indenizações pagas pela Comissão da Anistia: “O senhor, só pelo fato de ter passado quatro meses no DOPS, deve ter recebido uma excelente indenização desta Comissão.”

O site que publica a carta foi organizado e é mantido por Ustra, que hoje vive em Brasília, e outros ex-agentes da repressão política no período do regime militar. A carta aberta é datada de 2 de setembro, cinco dias após a publicação das declarações.

O vereador que foi processado pela Justiça Militar por sua participação no Molipo, a mesma organização à qual pertencia o ex-ministro José Dirceu, não teria dificuldade para reunir as informações pedidas. Mas ele não pretende responder.

Em rápido comentário sobre a iniciativa de Ustra, Natalini observou que ele tenta voltar ao papel de inquisidor: “Quem deve responder às perguntas hoje, perante a Comissão da Verdade, é o coronel Ustra. Quando ele vier prestar depoimento, pode vir tranquilo. Garanto que não usaremos os mesmos métodos que ele utilizava no DOI-Codi.”

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