Tem hora que sinto orgulho
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Tem hora que sinto orgulho

Roldão Arruda

16 de maio de 2012 | 18h56

No início da década de 1970, quando comecei a trabalhar como jornalista, havia um sinistro quadro de avisos na redação da Folha de Londrina. Eram afixados ali, com percevejos de latão, telegramas do Departamento de Censura da Polícia Federal. Lacônicos e brutais, constituíam uma longa lista de temas interditos. Não estavam autorizadas denúncias de corrupção. Se a Anistia Internacional divulgava no exterior uma lista com nomes de opositores da ditadura presos, torturados e desaparecidos, o telegrama da polícia chegava à redação antes da notícia.

Já em 1977, quando soube que o deputado federal Alencar Furtado, cassado por criticar a brutalidade do sistema, estava de passagem por Londrina, corri até o hotel onde se hospedava, para uma entrevista. Nunca consegui publicá-la, porque as declarações dele estavam proibidas.

 No final da década o quadro começou a mudar. Com muita luta, iniciou-se o a reabertura democrática. De lá para cá tivemos uma anistia política e uma assembleia constituinte, garantimos aos analfabetos o direito ao voto e elegemos de maneira direta quatro presidentes, entre eles um intelectual de alta envergadura e um ferramenteiro de origem nordestina. A imprensa nunca teve tanta liberdade para investigar e denunciar atos de corrupção como tem hoje. O Judiciário deixou de ser um poder intocável. As Forças Armadas estão cada vez mais restritas ao seu papel constitucional. A transparência tornou-se a palavra do momento.

Conseguimos avançar nesse período democrático apesar das cassandras que a todo momento nos advertiam sobre os riscos ocultos atrás das mudanças. A anistia faria o país retroceder, a eleição direta era prematura, a Constituinte levaria o País ao caos, a eleição de Lula arrasaria a economia.

Lembrei de tudo isso assistindo hoje pela manhã à cerimônia de instalação da Comissão da Verdade, que vai investigar fatos ocorridos durante a ditadura militar. Tive um momento de orgulho de meu país ao ver os ex-presidentes reunidos com Dilma Rousseff e os chefes militares sentados na plateia. Posso ter críticas a cada um deles, mas naquele momento olhei os cinco como representantes institucionais do Estado brasileiro e do período democrático que, apesar dos trancos e barrancos, já dura 27 anos – o mais longo da história do País. Lembrei que esse tipo de encontro é comum nos Estados Unidos e em outros países que admiramos pela suas regras democráticas.

No momento em que a presidente Dilma homenageou os que lutaram pela restauração da democracia, também lembrei do quadro sinistro no jornal londrinense onde tive meu primeiro emprego. Espero que a Comissão da Verdade tenha um papel educativo, para evitar que os telegramas, que hoje provavelmente seriam e-mails, nunca mais façam parte da rotina das redações.

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