“Segundo turno em São Paulo será um momento excepcional”
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“Segundo turno em São Paulo será um momento excepcional”

Roldão Arruda

08 de outubro de 2012 | 23h55

Diante do hiperpragmatismo partidário que marcou as eleições municipais deste ano, com arranjos políticos para todos os gostos, o cientista político Jairo Nicolau considera o embate entre o PSDB e o PT em São Paulo como um momento excepcional. Vai reproduzir, na avaliação dele, a polarização que existe no âmbito nacional entre os dois maiores partidos do País, com o envolvimento de ex-presidentes. “Vai ser uma eleição de manual”, disse ele em entrevista ao Estado.

Nicolau, que é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também disse que o mensalão não teve muita influência nas eleições, nas quais predominam debates sobre questões gerenciais e locais. Para ele, o fator mais visível no resultado das urnas é fragmentação partidária cada vez maior e a falta de densidade ideológica das legendas.

Sobre a ação de Lula no cenário eleitoral paulistano, disse que ele acertou na escolha de Fernando Haddad, mas não fez milagre. Seu candidato foi empurrado pelas características da eleição na capital paulista.

Quais mudanças no quadro partidário o senhor verifica após o resultado desta eleição?

Ainda é cedo para uma análise detalhada, mas, pelo que vi, não ocorreram grandes alterações. Nós, cientistas políticos, e vocês, jornalistas, queremos sempre encontrar recorrências, ver o que se destaca, um declínio acentuado, uma ascensão estonteante, mas não houve nada disso. O resultado só reforça um padrão que já verifiquei em eleições anteriores, desde 1996, caracterizado por uma enorme fragmentação dos partidos no âmbito do controle do poder local. 

Essa fragmentação aumentou?

Ela já tinha aumentando na eleição para o Congresso e está sendo aprofundada agora. O Brasil apresenta um dos quadros partidários mais fragmentados do mundo. É uma característica da nossa democracia. Isso pode ser medido e comparado nas eleições para o Congresso.

O que organiza esse quadro tão fragmentado?

Se apresentar o resultado destas eleições a um cientista político estrangeiro, ele vai ficar embananado, porque não há uma força dominante, não aparece exatamente quem está ganhando e perdendo no plano nacional. Cada cidade tem sua liderança local, que se encontra no partido Z, mas poderia estar no Y. E como existem trinta opções para navegar, as combinações são as mais incríveis. Aqui, no Rio, na Baixada Fluminense, no município de Belford Roxo, o candidato que saiu em primeiro lugar na corrida do segundo turno, com mais de 40% dos votos, é do PC do B. Mas o que o PC do B tem ali para explicar esse resultado? Não tem nada. Esse rapaz, provavelmente, caiu no gosto da população, assim como Lindbergh Farias caiu, anos atrás, e virou prefeito de Nova Iguaçu. A dificuldade para analisar as eleições locais é o fato de não seguirem o padrão da disputa nacional.

O senhor não vê nesta eleição nenhum fator de peso capaz de provocar uma guinada eleitoral em favor deste ou daquele partido?

Qual seria a razão para esse abalo sísmico? Não está acontecendo nenhuma onda. A última ocorreu na década de 1980, particularmente na eleição de 1985, e beneficiou o PT. Foi causada pelo episódio da morte dos operários da usina siderúrgica de Volta Redonda, após ter sido invadida pelo Exército. Houve uma insatisfação muito grande naquela semana e quem se beneficiou foi o PT. No Rio, o candidato Jacó Bittar dormiu com sete pontos nas pesquisas de intenção de voto e acordou com quinze. O mesmo aconteceu em Goiânia, Vitória, em São Paulo. Agora, porém, as ondas não são partidárias. Quando ocorrem, são em torno de nomes, de figuras que despontam. 

E o mensalão?

Não acredito que o PT tenha sido muito prejudicado nacionalmente por conta do processo do mensalão. Se o eleitor local vota no candidato do PT é porque ele o conhece, porque o PT já geriu a cidade dele. É o caso de Goiânia, onde os eleitores deram 57% dos votos para o candidato do PT. Em Belém, o candidato do pequeno PSOL, Edmilson Rodrigues, foi para o segundo turno porque já foi prefeito, quando era filiado ao PT, e é considerado um excelente gestor. Se estivesse no PT do B também iria para o segundo turno. O mesmo acontece com o Gustavo Fruet, do PDT, em Curitiba. Ele poderia estar em qualquer outro partido, porque o decisivo ali foi a sua liderança e o espaço político que conquistou.

E o voto partidário?

Não pesa nas eleições locais. Os partidos brasileiros têm baixa densidade ideológica e se comportam eleitoralmente como organizações hiperpragmáticas. Um exemplo do que estou falando é o PDT, que, depois da morte do Brizola, ficou acéfalo, sem uma liderança nacional e passou a se organizar também como uma confederação de lideranças regionais. Agora ele passou para o segundo turno em Curitiba e Macapá e ganhou em Porto Alegre. Deve ter algumas centenas de prefeituras e muitos vereadores pelo Brasil, o que significa que não foi mal. Mas posso atribuir isso ao crescimento do PDT como organização? Formalmente, sim. Mas que  PDT é esse? É um partido orgânico? O que junta esses prefeitos e vereadores?  Outro exemplo do que estou falando pode ser visto ao longo do tempo, na comparação do resultado das eleições. Em 2008, o Fernando Gabeira, do PV, foi para o segundo turno na disputa municipal e perdeu por trinta mil votos. Neste ano, a Aspásia Camargo, do mesmo PV, só obteve 1% dos votos.

E o caso de São Paulo?

É a exceção, com PT e PSDB, os dois grandes partidos nacionais, disputando a eleição com candidatos próprios, sem intermediários, replicando a polarização que existe no âmbito nacional. Vai ser uma eleição de manual. De um lado está o governador Geraldo Alckmin e o ex-presidente Fernando Henrique declarando voto em Serra; e, do outro, o Lula empenhado diretamente na campanha de Haddad. Será um momento excepcional, mas restrito a São Paulo. No restante do Brasil, o que mais se aproxima disso é o cenário de Salvador.

Não foi assim desde o começo.

Até a semana passada, todas as interpretações dos resultados das pesquisas de intenção de voto sinalizavam que o PT e o PSDB não organizavam mais a política de São Paulo. Observando as explicações sociológicas sobre a influência de uma nova classe C nos resultados, pensava: aqui no Rio também tem essa classe média e não apareceu um Celso Russomanno. Por que?

E o Rio?

Apresentou um cenário totalmente diferente. A cidade teve dois candidatos, um de um partido minúsculo nacionalmente, que é o PSOL, que se saiu muito bem; e o outro, do PMDB, que vai bem. Onde ficaram os dois grandes partidos nacionais? O PSDB ficou com menos de 3% dos votos e o PT não lançou candidato. Isso acontece na maioria das capitais, que não reproduzem o cenário de disputa nacional. Nem há motivo para esperar isso. Nas eleições municipais predominam temas gerenciais, administrativos, locais.

Quando o Lula entra diretamente numa eleição como de São Paulo e viaja pelo País defendendo outros petistas, não está tentando levar a polarização para o cenário nacional?

Há dois momentos na eleição municipal. O primeiro ocorre quando os partidos escolhem seus candidatos. A direção nacional dos partidos pode influenciar a decisão, especialmente os mais centralizados, como o PC do B, os pequenos partidos de esquerda. Nesta eleição, o Aécio Neves e o Eduardo Campos também circularam por vários Estados, procurando fortalecer alianças, operando em defesa de alguns nomes. A influência nacional se destina sobretudo à montagem das coligações.

E o segundo movimento?

O movimento dois é o do voto. No lugar de escolher um bom gestor para a sociedade, o leitor vai votar em alguém porque o diretório nacional indicou ou porque o Lula apoiou?

Que peso atribui a Lula na votação de Fernando Haddad?

O Lula é uma liderança popular e o seu empenho foi importantíssimo para Haddad, que, ao disputar pela primeira vez uma eleição, na maior cidade do Brasil, teve que confrontar um oponente que já se candidatou duas vezes à Presidência da República, foi governador e prefeito. O resultado foi bonito para Haddad, mas será que deve ser atribuído apenas à influência de Lula? A eleição em São Paulo tem uma configuração diferente neste ano. Sem um prefeito tentando a reeleição e sem caráter plebiscitário, o que ficou em primeiro plano foi a perspectiva de se eleger um bom gestor. Quando o Lula resolveu investir em Haddad, foi por ter visto nele um candidato com virtudes para concorrer em São Paulo. Sabia que não faria mágica. Por enquanto, ele acertou no seu diagnóstico. Mas por qual motivo não acertou em Porto Alegre? E em Recife? Porque os contextos eram diferentes, as circunstâncias não ajudavam, os concorrentes eram mais competitivos.

 Diante da fragmentação que o senhor observa, o que deve ocorrer daqui para a frente?

A única previsão que faço, com certa segurança, é que vai continuar aumentando. A próxima Câmara dos Deputados vai ser tão fragmentado quanto a atual.

Isso pode criar problemas de governabilidade?

Parece que não. Se tivéssemos partidos de maior densidade ideológica, partidos de extrema direita ou extrema esquerda, partidos regionalistas, capazes de criar polarização, haveria problemas. Mas os partidos pouco se distinguem uns dos outros, são praticamente vizinhos ideológicos e raras vezes se movem por princípios doutrinários. São legendas pragmáticas, que servem para eleger prefeitos e vereadores e estão sempre muito disponíveis para colaborar com o governo federal. O Fernando Henrique e o Lula não tiveram graves problemas de governabilidade. O mesmo ocorre com as prefeituras. Quais os prefeitos do País com graves problemas de governabilidade?

Mesmo a título de primeiras impressões, que mudanças destacaria nesta eleição?

No olho você percebe que o PSB cresceu. O PSOL, que saía de um patamar muito baixo, tendo concorrido em 2008 com uma organização tênue, também cresceu. O PSD, que surgiu agora, está tirando de alguém e fragmentando mais a disputa. O PT continua seu processo de interiorização, elegendo mais vereadores pelo Brasil afora, penetrando em Estados onde não tinha nada. O DEM sofreu com a perda de lideranças, dirigentes, militantes, quadros médios, or conta da fundação do PSD. Quero repetir, porém, que a chave para interpretar os resultados é a premissa de que as alterações partidárias nos municípios ocorrem de maneira muito lenta.

 

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