Renúncia prolonga o poder do grupo de Ratzinger
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Renúncia prolonga o poder do grupo de Ratzinger

Roldão Arruda

13 de fevereiro de 2013 | 20h47

A renúncia do papa Bento XVI foi mesmo um jorro de modernidade na Igreja Católica? Sim. Afinal, era uma das poucos instituições do mundo ainda aferradas à ideia de cargos vitalícios. Esse resquício feudal permanece agora no senado italiano e em algumas dinastias, com seus príncipes e reis.

Ao renunciar, Bento XVI se torna um papa progressista e moderno? Não. Ele continua conservador. Isso não basta, no entanto, para entendê-lo e avaliar seu gesto. É preciso notar também que o cardeal alemão Joseph Ratzinger tem se mostrado um refinado articulador político, com enorme estima pelo poder.

Ele foi a influência mais marcante na Cúria Romana nos últimos trinta anos. Mais exatamente desde que o papa João Paulo II o chamou para dirigir a poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, em 1981.

Naquele cargo, Ratzinger executou a tarefa de centralizar o poder na Cúria e silenciar as vozes dissidentes, que vinham se animando desde o Concílio Vaticano II, no final da década de 1960. Foi duro principalmente com os progressistas, por advogarem um modelo de governo mais democrático ou colegiado para a barca de Pedro.

O ex-frade franciscano Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação, que perdeu espaço no pontificado de João Paulo II, tem péssimas lembranças do cardeal Ratzinger. D. Paulo Evaristo Arns, cardeal de perfil liberal, que viu a Arquidiocese de São Paulo ser retalhada, por não se submeter a tudo que Roma lhe impunha, também não deve perfilar na lista de seus principais admiradores.

Aos poucos, Ratzinger mudou o perfil do episcopado no mundo e moldou o colégio de cardeais à imagem e semelhança da Cúria. Do total de 118 eleitores atuais, 67 foram indicados diretamente por ele, como pontífice. Entre os outros, a maioria também chegou lá após ter passado pelo seu crivo na Congregação para a Doutrina da Fé.

Se alguém procurar hoje no colégio cardinalício um representante dos progressistas autênticos, não encontrará nenhum. Não existem mais papabili como o cardeal milanês Carlo Maria Martini, que morreu em agosto do ano passado defendendo maior diálogo da Igreja com o mundo moderno. As facções que hoje estariam disputando o poder no Vaticano são, quase invariavelmente, ligadas a grupos religiosos conservadores.

Com o desaparecimento de João Paulo II, em 2005, Ratzinger poderia ter se afastado da Cúria para se dedicar a estudos teológicos e orações, que, segundo seus admiradores, são suas grandes paixões. Mas não. Participou das articulações políticas da época e tornou-se papa com os votos do colégio que moldou.

A renúncia, como já foi dito, tem grandeza e merece elogios. Com problemas cardíacos e artrose, o cardeal alemão abre o caminho para alguém mais jovem assumir a condução da Igreja e, ao mesmo tempo, evita o destino de papas como Pio XII e João Paulo II. Os dois, após terem demonstrado capacidade intelectual e disposição no exercício do poder, terminaram o pontificado de maneira triste: debilitados por doenças, acabaram transferindo o poder para assessores imediatos.

Há um outro aspecto, porém, que deve ser considerado nesse momento: a renúncia permite a Ratzinger influir na escolha de seu sucessor. Indiretamente, com tal gesto o grande articulador político prolonga o poder do grupo que comanda a Cúria há mais de três décadas.

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