Para historiador protestante que participou do Vaticano II, Igreja deve repensar ensinamentos na área de sexualidade
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Para historiador protestante que participou do Vaticano II, Igreja deve repensar ensinamentos na área de sexualidade

Roldão Arruda

12 de junho de 2012 | 19h22

Na edição desta semana, a revista católica America, editada nos Estados Unidos pela congregação dos jesuítas, publica um artigo do historiador e jornalista Martin E. Marty, professor emérito da Universidade de Chicago, sobre o Concílio Vaticano II. É um texto interessante, com as impressões de quem esteve lá, e, de maneira geral, o tom é positivo. A começar pelo título: Um Grande Despertar. A principal falha do evento, na avaliação do articulista, foi não ter discutido de maneira profunda temas relacionados à sexualidade. “Muito pouco sobre isso veio à tona no concílio”, diz ele.

Marty é protestante e foi como observador ao concílio, aberto no dia 11 de outubro de 1962. Decorridos 50 anos, ele afirma que o Vaticano II pode não ter sido uma revolução, mas alterou profundamente a maneira da Igreja agir e se relacionar com o mundo e é por isso que ela “tem muito a dizer sobre justiça, pobreza e ambiente”. De outro lado, porém, “temas biológicos e sexuais” vão se tornando uma fonte de preocupação cada vez maior para seus doutrinadores.

Segundo o articulista, se um pesquisador perguntar aos católicos, especialmente os que estão passando da meia idade, sobre o que consideram importante discutir agora e sobre qual área a Igreja mais necessita de ideias novas, ele poderá ouvir respostas complexas, mas que, no fundo, podem ser condensadas na palavra sexo. Mais exatamente: na abordagem católica para questões relacionadas ao tema. Isso inclui elaborações tanto do ponto de vista biológico quanto ético, filosófico e teológico. As inquietações dos católicos, prossegue o articulista, estão codificadas com nomes conhecidos, tais como controle da natalidade, fertilização in vitro, divórcio, homossexualidade, aborto e outros.

Ao tentar explicar o motivo pelo qual a discussão foi evitada no concílio, o historiador aponta duas possíveis causas. A primeira seria por não se tratar de uma questão das mais preocupantes e urgentes para os bispos na época. A segunda seria a falta de preparo deles.

Marty observa que o livro com os documentos do Vaticano II possui 1.062 páginas. A parte dedicada especificamente a matrimônio e relações conjugais está limitada a dez páginas. Ele também observa que, no rodapé de uma das páginas, a 559, na edição do livro que ele cita, foi feita a observação, em letras miúdas, que certas questões, relacionadas a população, família e natalidade, requeriam estudos mais aprofundados e seriam repassadas para uma comissão de especialistas. Eles fariam os estudos e encaminhariam os resultados ao papa Paulo VI.  “A comissão não tem a intenção de propor soluções concretas no momento”, acrescentava a nota de rodapé.

Ao publicar o artigo, o editor da revista incluiu uma nota esclarecendo que o Vaticano II foi o 21º concílio da Igreja. Reuniu cerca de 2.500 bispos, em quatro sessões, no período de 11 de outubro de 1962 a 8 de dezembro de 1965. Podiam votar apenas os bispos e os chefes de congregações religiosas masculinas. Mas, pela primeira vez, não católicos e leigos foram convidados para as sessões, como ouvintes. Os protestantes e os ortodoxos enviaram cerca de 80 observadores. Martin E. Marty, que hoje é colunista de jornal, foi um deles. Acompanhou toda a terceira sessão.

Para quem se interessar, o artigo do historiador pode ser lido na íntegra na

Documento

, pela Internet. Para quem quiser ir além, os jesuítas criaram um site especialmente ao dedicado ao assunto, com o nome Conciliaria, que também está aberto na internet.

Este blog deverá publicar informações sobre o evento, até a festa do cinquentenário, em outubro. Este é o terceiro post.

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